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30/08/2012

Cinema e educação

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Márcia Regina Galvan Campos e Darice Zanardini da Silva, do Portal Dia a Dia Educação, e Michelle Riemer, do Museu da Escola, em julho/2012 entrevistaram Alain Bergala. 
Foto de Alain Bergala, professor e diretor de cinema francês
Alain Bergala é crítico de cinema, ensaísta, roteirista e diretor de cinema. Estudou na Universidade de Paris III: Sorbonne Nouvelle e em La Fémis. Em 2000, tornou-se conselheiro de cinema de Jack Lang, Ministro da Educação na França, com quem discutiu e montou um bem sucedido projeto com artes na educação.
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Considerando sua experiência com cinema e educação, como o senhor pensa que deve ser o início do trabalho com o audiovisual na escola?
Bom, eu penso que é preciso dizer aos educadores, aos professores, primeiramente, que é muito tranquilo fazer cinema com os alunos. Mas, o professor deve ser obstinado e gostar de cinema, ver muitos filmes. (...)


Como os professores e os alunos receberam o projeto, no início?
De início, a ideia era que o professor não fizesse tudo sozinho. Ao trabalhar com cinema, era interessante que houvesse alguém vindo de fora da escola, alguém ligado ao cinema: um produtor, um engenheiro de som, um cenógrafo. Então, na sala de aula, estariam o professor e mais alguns profissionais do cinema. (...)
A experiência de rodar pequenos filmes era necessária. Então, era importante que os alunos pudessem sair da escola, não fazer os filmes somente dentro da sala de aula ou das dependências do colégio. Era preciso poder dar uma volta no quarteirão, ir a um parque, a um jardim, ou a outro lugar, pois os alunos deveriam, neste momento, sair da escola, acompanhados, evidentemente, pelo professor e por um membro da equipe de produção.
Quais foram as etapas necessárias para o início deste trabalho na escola?
Bom, na França há uma antiga tradição do cinema na escola que remonta há uns 40 anos, inclusive nas escolas públicas. Assim, é importante dizer que é uma grande tradição na França, por razões culturais e históricas, que isso tenha se desenvolvido rapidamente.
Acredito que uma das primeiras etapas é ter vontade política. Na França, isso se deu no momento em que eu trabalhei para o Ministério. Havia um ministro de educação que disse a todos os educadores: "Se você quer fazer isso, você pode. Vamos ajudar com um pouco de dinheiro para comprar materiais e outras coisas”. Assim, quando um ministro decide que isso é uma ação normal e legítima, evidentemente as coisas se desenvolvem, porque os educadores não podem fazer seus projetos sozinhos em suas cidades, e, tão logo tenham algum auxílio, alguém que os reconheça, tudo fica mais fácil. (...)
E a comunidade escolar, como recebeu este projeto?
Bom, a comunidade escolar aceitou isso muito bem, pois desde o primeiro ano tivemos muita procura, além do que nos era possível ofertar. (...)
É importante destacar que, na escola, não havia apenas o cinema, mas também as artes plásticas e a música, ou seja, das artes, na escola, o cinema era uma arte no meio de outras artes. Pode-se dizer que a comunidade e os educadores, então, entraram como voluntários, pois não era algo obrigatório. O professor tinha que saber que se quisesse fazer um projeto de cinema teria de fazê-lo com a turma durante todo o ano, pois a duração aqui é muito importante, não é uma experiência que vamos trabalhar três vezes no ano... deve ser realizada durante o ano inteiro. São necessárias muitas horas para que os alunos conheçam os filmes, reflitam e façam as devidas preparações: trata-se de um trabalho de longa duração.
Em relação à metodologia deste projeto, os professores receberam formação específica?
Então, na França é esperado que todo professor que se formou na Universidade conheça o mínimo sobre cinema, porém este não é um critério. Todo professor, mesmo sem formação, mas que demonstre vontade, desejo verdadeiro de realizar essa tarefa, pode realizar o projeto.
Pensando nisso, tentei realizar uma formação nacional. (...) Foi uma formação bastante aprofundada e o professor teve que aplicar o que aprendeu na sala de aula.
Há muitas classes de cinema em que o professor não tem formação. Então, como eu sabia que haveria pessoal sem formação, bem como lugares que não têm uma sala/um projetor de cinema, onde não se poderiam ver filmes, criei uma coleção de DVDs, não como os DVDs comerciais, mas trechos de filmes que levassem o professor e, principalmente, o aluno, a pensar nessa experiência. Gostaria que os educadores que não tivessem formação pudessem ter o mesmo que os outros, ou seja, alguma coisa que pudesse ser usada na classe e que os auxiliasse no momento de mostrar, incitar a discussão, a reflexão.
A questão mais importante, então, é: se existe uma proposta de se realizar um trabalho para o qual o professor não tem formação, é essencial que lhe seja fornecido algum material, mesmo básico, que o auxilie neste trabalho.
A sua intenção de fazer cinema-arte na escola funcionou?
Sim, funcionou. Percebemos que a cada ano existem mais classes e mais professores trabalhando com o cinema. (...)

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