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03/08/2012

"A violência" tratada por Hannah Arendt

(...) A forma extrema de poder é o Todos contra Um, a forma extrema de violência é o Um contra Todos. E esta última nunca é possível sem instrumentos. (ARENDT, p. 35)
Assim, é imprescindível destacar a diferenciação feita pela autora a respeito do poder [power], do vigor [strenght], da força [force], da autoridade e da violência, a fim de demonstrar que estes não são meros meios em função dos quais o homem domina o homem. Dessa forma, define poder da seguinte forma:
O poder corresponde à habilidade humana não apenas para agir, mas para agir em concerto. O poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e permanece em existência apenas na medida em que o grupo conserva-se unido. Quando dizemos que alguém está no poder, na realidade nos referimos ao fato de que ele foi empossado por um certo número de pessoas para agir em seu nome (ARENDT, p.36).
Para ela o poder é uma habilidade do homem para "agir em concerto". O poder não é propriedade de um indivíduo, pois pertence a um grupo e existe apenas enquanto este grupo permanece unido. Na medida em que o grupo se desfaz, o poder também desaparece. Assim, estar no poder significa "estar autorizado" pelo grupo, pela cidade, pela nação, a falar em seu nome.


Por sua vez, o vigor estaria ligado às características individuais (e não políticas), isto é, seria uma "propriedade inerente a um objeto ou pessoa e pertence ao seu caráter, podendo provar-se a si mesmo na relação com outras coisas ou pessoas, mas sendo essencialmente diferente delas". Nesse sentido, por ser essencialmente particular, o vigor pode ser sempre uma ameaça ao poder. Então, "vigor" se diferencia radicalmente do conceito de poder.
A força, por sua vez, significa a "energia liberada por movimento físicos ou sociais" (força da natureza, força das circunstâncias). Sendo assim, ela não se confunde com a violência, mesmo tendo sido utilizada frequentemente como seu sinônimo, nem com vigor.
A autoridade é por ela definida como o reconhecimento a alguém por parte de um grupo a quem se pede obediência, não sendo uma relação igualitária, mas hierarquizada, posto que, quem obedece, o faz por "respeito". Portanto, a autoridade é uma relação de mando e obediência, isto é, não se traduz em violência, pois conservar a autoridade requer respeito pela pessoa ou pelo cargo.
A violência foi pela autora definida como algo de caráter instrumental, pois seria o ato que opera, no caso das relações sociais, sobre o corpo físico do oponente, matando-o, violando-o.
Arendt ressalta que frequentemente pode ocorrer de esses fenômenos distintos se entrecruzarem na realidade concreta, isto é, do poder aparecer sob a forma de autoridade; ou a combinação entre poder e violência; em que pese o fato de que não representam o mesmo.
Na questão particular entre poder e violência, teóricos da revolução afirmam que as chances de uma revolução diminuíram na proporção do aumento da capacidade destrutiva das armas à disposição dos Governos.
Mas Arendt discorda, acreditando que a história mostra que a superioridade do governo apenas se mantém enquanto a estrutura de poder do governo está intacta, enquanto os comandos são obedecidos e as forças militares estão prontas para serem usadas. Isto porque, se o governo não mais possui o seu poder, as armas mudam de mãos, e a capacidade de organização da sociedade para uma revolução supera o poder armamentista. Por essa perspectiva, tudo depende do poder por trás da violência, pois a "ruptura súbita e dramática do poder que anuncia as revoluções revela em um instante o quanto a obediência civil nada mais é do que a manifestação externa do apoio e do consentimento".
Em seguida, a autora diferencia o poder da violência, afirmando que o poder é a essência de todo governo, mas não a violência. Esta é por natureza instrumental, e necessidade de orientação e da justificação pelo fim que almeja. O poder é um fim em si mesmo, não precisa de justificação, pois é inerente à própria existência das comunidades políticas. O que o poder precisa é de legitimidade e a forma mais simples de legitimação é o voto. A violência pode ser justificável "porque traz queixas à atenção pública", porque "denuncia uma ausência de diálogo e, em última instância, reclama a falta de cidadania", mas nunca será legítima.
O poder é de fato a essência de todo governo, mas não a violência. A violência é por natureza instrumental; como todos os meios, ela sempre depende da orientação e da justificação pelo fim que almeja. E aquilo que necessita de justificação por outra coisa não pode ser a essência de nada. (p. 41)
Aos que acreditam que poder e violência unem-se em virtude da compreensão do governo como a dominação do homem pelo homem, a autora demonstra que a violência sempre pode destruir o poder, pois do "cano de uma arma jamais sairá o poder", visto que o domínio pela pura violência advém de onde o poder está perdido. Desse modo, ela não apenas diferencia poder e violência, mas coloca-os em espaços contraditórios: "poder e violência são opostos; onde um domina absolutamente, o outro está ausente. A violência aparece onde o poder está em risco, mas, deixada a seu próprio curso, ela conduz à desaparição do poder".
Na perspectiva da autora, a violência não se basta a si, "ela sozinha não leva a nada", e por ser de natureza instrumental, necessita de justificativa. Mas a violência possui um sentido quando se trata de legítima defesa, porque o perigo é não apenas claro, mas também presente, e neste caso, o fim justifica os meios é imediato. No entanto, a violência perde esse sentido quando se torna uma estratégia, um princípio de ação contra todos, de forma racionalizada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARENDT, H. Sobre a Violência. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

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