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19/08/2012

A encantadora Obax

É realmente um livro muito gostoso, talvez até pela leveza e o jeito de sonho que ele tem. É agradável e flui bem, como uma daquelas centenas de histórias da África que acabaram sendo trazidas para o Brasil. Para quem gosta de contadores de história (e lógico, boas histórias) e tem crianças em casa, vale a pena dar uma conferida em Obax.
E para quem ficou curioso sobre o trabalho do André Neves, fica a dica do blog Confabulando Imagens, onde o próprio autor fala de suas obras, incluindo aí a notícia de que Obax foi selecionado pela Biblioteca Internacional da Infância e da Juventude, de Munique, na Alemanha, para o importante catálogo The WhiteRavens 2010.
A sonhadora menina habitante das savanas leva André Neves ao Prêmio Jabuti 2011 com o livro Obax, vencedor de melhor livro infantil. E os leitores, onde ela pode nos levar?
Ler Pra Crescer: Desde quando Obax existe no André Neves? Como ela nasceu?
André Neves: Obax surgiu por acaso. Tenho realmente uma pedra que me lembra "só a mim mesmo" um elefante (na história, a menina tropeça em uma pedra e decide sair pelo mundo para “provar suas histórias”). A chuva de flores sempre permeou meu imaginário (ela jurava ter visto uma, mas ninguém acreditou). Juntei tudo isso ao apreciar um livro de fotografias sobre uma comunidade africana. Me apaixonei visualmente e o imaginário se apresentou.
LPC: O que o continente africano nos reserva - e nos dá - em relação às histórias? Você fez pesquisas para Obax ou pesquisa com frequência?
AN: Gosto de reforçar que meu conhecimento sobre o continente africano é restrito. Esse livro não surgiu pela afrodescendência. O que me alimenta nas minhas criações são imagens. Talvez se eu tivesse visto um livro de fotografias de outra etnia tudo seria diferente. O livro que vi foi African Canvas, The art of West African Women. Meu imaginário é amplo, mas não o forço. Se ele desejar posso falar sobre qualquer coisa, e, se for necessário ambientá-la culturalmente, caio na pesquisa.
LPC: E sobre as referências estéticas? No que os povos africanos são uma fonte inesgotável?
AN: A indumentária africana sempre me chamou atenção pelas cores e grafismos. As histórias de tradição oral também são ricas e fantasiosas, tanto quanto as brasileiras. Mas, como a pergunta foi bem colocada, tudo pode ser uma fonte inesgotável e o imaginário não pode encerrar no que está registrado. Ele pode sempre ir além.
LPC: Na sua opinião, o que tem essa menina que nos encanta tanto? Como é que os leitores se identificam, se entendem com ela?
AN: Não sei explicar. Talvez não seja a menina, mas a força da fantasia poética dentro da história. Temos no Brasil um número assustador de livros publicados e o lúdico se mistura a uma necessidade de temas e exemplos para infância. Mesmo que "camufladamente", as fórmulas se repetem numa mesmice que muitas vezes está atrelado ao cotidiano da criança. Falta espaço para fantasiar, falta ousadia para fantasiar, falta fantasia para arriscar.
LPC: Há alguma história com leitor criança, algum encontro que marcou você como repercussão de Obax?
AN: Sim, dois momentos. Primeiro em uma escola de Brasília onde os leitores construíram em tamanho real uma árvore com flores artesanais. Beleza contagiante. Segundo foi ouvir de uma leitora bem pequena "eu queria mora dentro daquela casinha da Obax". Despretensiosamente me senti um pouco Lobato que um dia declarou a vontade de criar livros onde as crianças desejassem morar.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

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