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15/08/2012

A CONSTRUÇÃO DO SER POÉTICO

“Poeta, não somente o que escreve.
É aquele que sente a poesia,
se extasia sensível ao achado"
Cora Coralina
“Por que motivo as crianças de modo geral, são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo? ” Por que razão este questionamento do grande poeta Carlos Drummond de Andrade, em 1974, parece-nos ainda tão atual?
POESIA VISUAL – ALUNOS DO QUINTO ANO

Constatar que as crianças, de modo geral, são poetas significa considerar a experiência linguística, lúdica e poética que possuem, antes mesmo de entrarem para a escola, experiência esta revelada pela oralidade, pela sonoridade e pelos jogos de palavras que criam, passando a constituir seu repertório presente nas cantigas, nas quadrinhas rimadas, ritmadas e em outras criações verbais tão próprias dessa fase de suas vidas.
(...) Ligia Cademartori Magalhães (1987) considera que a poesia infantil, lida ou ouvida, parece oferecer um meio de remediar a brusquidão provocada pela ruptura entre o ludismo infantil e a iniciação no código verbal, com a entrada para a escola.
De fato, quando ingressamos na escola, dificilmente somos estimulados a ouvir e ler poemas. O texto serve de trampolim, na maioria das vezes, para o estudo de vocabulário, regras gramaticais e de estilo.
Há um livro de que gosto muito e cuja autora nos faz despertar para a sensibilidade poética – Literatura Infantil & Juvenil: vivências de leitura e expressão criadora, de Vânia Maria Resende, que dedica um capítulo à reflexão sobre a iniciação da criança no universo da poesia. Dele retirei um pequeno trecho para ilustrar e ampliar as possíveis respostas à questão que Drummond nos faz.
A afetividade que existe na relação da professora com as crianças menores, na escola, é decisiva para introduzi-las no mundo fantasioso e emocionante das histórias, dos poemas, dos jogos, das cantigas, dos brinquedos folclóricos e de músicas acessíveis à sensibilidade infantil. Educador e criança farão parte de uma mesma realidade que integra os sentidos, as ideias, as fantasias e as emoções.
Assim, professores desde a Educação Infantil devem ser sensíveis, durante a experiência escolar, à manutenção da espontaneidade poética e à abertura para o jogo sonoro e semântico que tanto as crianças apreciam. E para evitar que ocorra aquela ruptura entre Educação Infantil, Alfabetização e o Ensino Fundamental, essa sintonia com a apreciação poética deve permear todo o trabalho com a linguagem na escola.
Para tanto, há que se construir o ser poético também em adultos, educadores, que não tiveram contato mais estreito com a poesia.
Conheço dois fatos curiosos que me foram relatados a partir de um trabalho desenvolvido na área da leitura e produção de textos, com professoras do Ensino Fundamental de uma escola pública.
O primeiro é representativo do pensamento de muitos professores a respeito do trabalho com a poesia na escola e pode ser resumido pela seguinte frase: “Esse negócio de versinho, rima, som são coisas da pré-escola. Nós temos que dar conteúdo! Não temos tempo a perder ”. Professores com essa atitude estão longe de promover a educação do ser poético. Na verdade, eles mesmos precisam ter despertada sua apreciação poética. Poesia também é conteúdo nas aulas de linguagem. É um texto diferente da narrativa ficcional. E as crianças precisam conhecê-lo: observar sua percepção global, o tema que aborda, sua distribuição espacial, a eventual presença de um título, nome do autor, estrofes, possíveis rimas, a eventual ausência de pontuação, etc. Tudo isso e muito mais são as marcas de um poema e, portanto, conteúdo imprescindível na formação de leitores autônomos, sujeitos que fazem escolhas, que não recebem tudo pronto, que querem dizer sua própria palavra, instigados pelos vários sentidos, pelas diversas vozes que sentem fluir dos textos literários a que têm acesso.
O segundo relato vem de uma professora da mesma escola que, ao trabalhar com poesia na sala de aula, surpreendeu-se com um aluno que gostava de escrever poemas.
Num dia de aula de Ciências, este aluno perguntou-lhe se poderia escrever o assunto da aula, sob a forma de poema, um forte indicador de que essa criança já traz em si o instinto poético a que Drummond se refere em seu artigo. Bastou-lhe o estímulo da professora, para ousar ter variadas experiências com a língua, enquanto fenômeno que está à sua disposição.
Esse é, portanto, um aluno que não se submete à língua como um dom exterior a ele, sobre o qual ele não tem direitos (Cademartori, 1987).

Referências Bibliográficas

ANDRADE, Carlos Drummond de. A educação do ser poético. Suplemento Pedagógico nº 34, do jornal Minas Gerais: Belo Horizonte, outubro de 1974.
MAGALHÃES, Ligia Cademartori. Jogo e iniciação literária. In: ZILBERMAN, Regina e MAGALHÃES, Ligia C. Literatura Infantil: autoritarismo e emancipação. 3 ed. São Paulo: Ática, 1987.

2 comentários:

  1. Maravilhos, como tudo que você faz. Agradeço a Deus por esta oportunidade maravilhosa de aprendizado que tenho com pessoas como você, toda nossa equipe de direção e meus alunos. Todos os dias, vivo emoções novas e maravilhosas, aprendo muito e isso me fas uma pessoa cada vez mais experiente e feliz.
    Que o manto sagrado de Nossa Senhora continue sempre guiando com extrema sabedoria porque precisamos muito de você para continuar crescendo. Mesmo aqueles que negam, precisam do seu trabalho e da sua presença, pode ter certeza.
    Deus te abençoe!

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    1. Agradeço pela interlocução, pelo respeito e admiração ao meu (nosso) trabalho (que é construído cotidianamente por muitas pessoas). A gratidão, humildade, admiração, elogio, respeito, etc. estão - infelizmente - cada vez menos presentes nas relações humanas. Sou muito feliz por estar nesse lugar, nesse momento, desenvolvendo esse trabalho. Procuro fazer o melhor que posso, ainda que muitos não valorizem ou compreendam... Aprendi, com a maturidade a considerar só o que me edifica e faz bem! O resto... ignoro completamente!
      Obrigado por tudo!
      Beijos
      Rose

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