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02/08/2012

13 curiosidades sobre Carlos Drummond de Andrade

Foto: Carlos Drummond de Andrade
Drummond é um poeta como muito mais do que sete faces

Faces que talvez você não conheça de um dos mais famosos poetas brasileiros - 29/06/2012 
Texto Bruno Teixeira
Raramente dava entrevista e se deixava ser fotografado. "Como a cara que Deus me deu não é das mais simpáticas, e costuma ficar ainda pior quando fotografada, costumo fugir das objetivas como o diabo foge da cruz", contou a Humberto Werneck em entrevista em VEJA (Editora Abril), de 1977. Mas quem diria que o poeta gauche (tímido) adorava passar trotes aos amigos? Passava a mão no telefone e ligava. Imitava outra voz e os enganava. Drummond é um poeta como muito mais do que sete faces. Deixou uma obra extensa e uma certeza: de que a poesia não precisa ser difícil, ela pode ser lida à beira mar, como quem caminha com destino a um lugar desconhecido. Conheça algumas curiosidades sobre o poeta:
Foto: Carlos Drummond de Andrade


1. "Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira", escreveu Drummond em Confidência do Itabirano, poema da obra Sentimento do Mundo (1940). (...)
2. Quando tinha 15 anos de idade, Drummond ingressou como aluno interno no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ). Lá publicou seu primeiro texto, em 14 de abril de 1918, no jornal do colégio. Um ano depois, foi expulso por insubordinação mental, como os padres justificaram. O poeta teve de deixar o colégio durante a madrugada, sem se despedir de ninguém. "Não tenho trauma, não. Já falei tanto mal dos padres que me expulsaram, já esculhambei tanto que hoje estamos quites", disse o poeta ao jornalista Geneton Morais, no que seria a última entrevista de Drummond e depois seria transformada em livro, o Dossiê Drummond (Editora Globo). Drummond se graduou em Farmácia, mas nunca exerceu a profissão.
3. Em 1924, Carlos Drummond de Andrade, na época com 22 anos, publicou o livro Os 25 poemas da Triste Alegria, artesanalmente. Mostrou a obra para poucas pessoas, durante a vida. Um dos sortudos foi o poeta Mário de Andrade, que viu o livro em 1926. Mário respondeu a Drummond fazendo criticas pesadas. "O poema Momento Feliz é a coisa pior deste mundo", comentou o poeta paulista. Quando se encontraram, anos depois, em um restaurante no Rio de Janeiro, Mário, animado, recebeu Drummond de braços abertos. "Carlos!", disse. Drummond recusou o abraço e deu um aperto de mão: "Como vai, tá forte?". (...)
4. O poeta modernista foi, por mais de 40 anos, funcionário público e na maior parte desse tempo, trabalhou com seu amigo de infância, Gustavo Capanema - que ocupou, entre outros cargos, o Ministério da Cultura e da Saúde Pública, de 1937 a 1945. (...)
5. Durante toda a vida, o poeta Carlos Drummond de Andrade teve uma relação muito próxima com o jornalismo. Trabalhou, por exemplo, como repórter no Correio da Manhã. "A única vocação que tive foi a de jornalista, e não a realizei plenamente", disse em entrevista ao jornalista Zuenir Ventura, nas Páginas Amarelas em Veja, de 1980. Drummond também foi cronista. "O jornalismo é uma forma de literatura. Eu, pelo menos, convivi - e mil escritores conviveram - como uma forma de jornalismo que me parece muito afeiçoada à criação literária: a crônica", contou o poeta ao jornalista Geneton Morais. De outubro de 1969 a setembro de 1984, escreveu crônicas no Jornal do Brasil. Escrevia às terças, quintas e sábados. Drummond também escreveu contos. Publicou, ao todo, 20 livros de crônicas e contos.
6. A revista Realidade (Editora Abril) trouxe, na edição de março de 1969, seis músicas da banda britânica The Beatles traduzidas por Drummond. (...) Durante sua carreira, Drummond também traduziu diversos livros para o português. Autores como Marcel Proust, Balzac e García Lorca foram alguns dos autores estrangeiros que o poeta traduziu.
7. A Rosa do Povo (1945) está entre os livros mais importantes de Carlos Drummond de Andrade. Nele, o poeta escreve versos sobre a Segunda Guerra Mundial e seus milhares de mortos. Em 1976, o sambista Martinho da Vila gravou um disco, com 11 músicas, com o mesmo título do livro. A segunda faixa, João e José, uma parceria de Martinho com João Nogueira, faz relações diretas com a obra de Drummond: "Não tá mole não, José. Esse mundo louco. A televisão mostra sempre um pouco. Bala de canhão e bomba de troco [...] O nosso sambão é Rosa do Povo". Martinho da Vila musicou também o poema Sonho de um sonho, do livro Claro Enigma (1951).
8. "Gosto de Noel, de Caetano, de Gilberto Gil. E também do Tom Jobim. É difícil dizer assim de cabeça, mas tem muita gente boa", disse Drummond em entrevista ao jornalista Zuenir Ventura. "Gosto de Chico Buarque, nem é preciso dizer, com quem me sinto muito identificado." Chico Buarque, em 1975, escreveu o musical Gota D´Água, com Paulo Pontes. Uma das músicas, que ficou muito famosa depois, é Flor da Idade - "Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava..." - uma referência direta ao poema Quadrilha, de Drummond: "João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria...".
9. No ano em que completaria 85 anos, Drummond foi homenageado pela Estação Primeira de Mangueira com o samba-enredo Reino das Palavras. "Mangueira, de mãos dadas com a poesia. Traz para os braços do povo este poeta genial: Carlos Drummond de Andrade", começa a música. (...)
10. Maria Julieta, filha única de Drummond, tinha 57 anos quando morreu de câncer generalizado, em 1987, no Rio de Janeiro. Aos 84 anos, o poeta enterrava pela segunda vez um filho. Em 1927, Drummond, com 25 anos, enterrou seu primeiro filho, Carlos Flávio, que faleceu meses depois de nascer. O poeta não suportou enterrar dois filhos. Foram precisos exatos 12 dias para ele reencontrar sua filha, com quem tinha uma forte ligação. Drummond faleceu de ataque cardíaco no dia 17 de agosto. "Pois de tudo fica um pouco. Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha. De teu áspero silêncio um pouco ficou", (Resíduo, CDA).
11. Drummond foi casado por 62 anos com Dolores Dutra de Morais. Porém, durante 36 anos, Lygia Fernandes, 25 anos mais jovem que o poeta, e Drummond namoraram (como eles preferiam chamar o caso extraconjugal). Se conheceram, em 1951, no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde trabalhavam. Eles se viam todos os dias, mesmo depois de o poeta se aposentar. Drummond fez várias poesias para ela e deixou, pelo menos, três livros de poemas inéditos, além de manuscritos de Lição de Coisas e Boitempo. Lygia morreu em 2003 e seus familiares recolheram o material. Até hoje se recusam a divulgá-lo. Um tesouro perdido.
12. O cronista e romancista Fernando Sabino gravou nas décadas de 60 e 70, junto com diretor de cinema David Neves, uma série de documentários em curta-metragem com grandes nomes da literatura nacional e reuniu no filme Encontro Marcado com o cinema. No curta sobre Drummond, intitulado O Fazendeiro do Ar (1972), o poeta aparece falando sobre sua vida e sobre o seu cotidiano. Ele a caminho do trabalho, em casa com a esposa, conversando com os amigos, lendo dentro do ônibus. Em uma passagem, brinca de se esconder nas pilastras do Edifício Gustavo Capanema, onde ele trabalhou no Ministério da Educação.
13. Era um domingo, dia 15 de janeiro de 1989, quando o então presidente José Sarney anunciou o Plano Verão. Junto com ele, o país ganharia - além de uma inflação que subiu 6% em dois meses - notas de Cruzado Novo, que cortavam três zeros em relação à moeda anterior, o Cruzado. Quem estampava a nota mais baixa, a de 50 cruzados novos, era Drummond (Cecília Meireles aparecia na de 100). De um lado o rosto do poeta, do outro o poema Canção Amiga (do livro Novos Poemas, de 1948): "Eu preparo uma canção/ que faça acordar os homens/ e adormecer as crianças." O Cruzado Novo durou pouco mais de um ano e foi substituído pelo Cruzeiro. Fonte

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