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18/07/2012

Poemas visuais de Arnaldo Antunes tentam mostrar o agora


2 ou + corpos no mesmo espaço - Perspectiva, 1997.
Livro de poemas, acompanhado de um CD com sonorização de alguns poemas em vários canais de vozes simultâneas, gravado especialmente por Arnaldo e produzido por Alê Siqueira.
Os poemas de “2 ou + Corpos no Mesmo Espaço”, de Arnaldo Antunes, lançado nesta semana, fazem parte da tentativa de liberar a visualidade, livrá-la das lunetas discursivas. Mas sem livrá-la da linguagem.
O discurso, como relação entre sujeito e predicado, é longo, não dá conta do presente. A poesia visual tem tal ambição: mostrar o presente, que o discurso perde, quando fala “sobre” ele. Wittgenstein, que falou disso, nada mais fez que retomar Agostinho.
Arnaldo Antunes faz poemas como quem constrói demonstrativos (ver “Sol”, “the and”, “taovez” e outros). Pois o presente só pode ser mostrado (na voz, na cara, nos digitais). Examinemos “rio: o ir”.
Há um /o/ no centro de um octógono. É uma vogal? Sim. Mas também uma esfera, uma circunferência, um centro. Não porque Antunes assim o queira, mas porque o jogo assim determina.
É preciso entregar-se a esse jogo, perder-se nele. Não existe eu, não existe autoridade nos processos genuinamente inventivos. Assim, os traços laterais do octógono também podem ser um / i /, ou símbolo da descontinuidade (repare-se que os lados não se tocam).
O verbal e o visual, sendo distintos, porém sintetizados, abrem-se para uma dinâmica interminável, porque apoiada nos acasos do espaço, e não numa distribuição temporal. O visual é justamente a abolição do sequencial.
Aquilo que é de fato presente, e que não é controlado por delimitação nenhuma, é o que significa mais inesgotavelmente. É a opção do olhar nos intervalos do espaço.
Com o / R / , temos “rio: o ir”, será esse o curso “heraclítico” dos rios?
Sim. Mais: aquele “o ir”, sem deixar de ser o que já é, também pode ser oir – ouvir: ouvir o rio. Contra esse rio, contra esse (HOR)ROR, dorme indiferente o pitagórico círculo do ser.
A periferia se projeta na engrenagem (RRRRRR), que baliza o tragicômico choque entre um RIR e um (HOR)ROR, espécie de rio Okeanós, a sustentar e circular o mundo, sem gozar dos prazeres. O inferno, no caso, não está no centro e no fundo, mas na periferia.
Todo esse poema é um deslumbre. Se Antunes enxergou o que enxerguei? Isso é perguntar se o gafanhoto tem ciência de suas relações com a gafanhota.
A poesia visual é a tentativa de mostrar o agora, experiência desoprimida de qualquer discurso ou preconceito. Como tal, é inesgotável. Além do mais, a poesia é cosmológica. Vale dizer: sua existência não depende do que pensamos que ela seja.
Antonio Medina Rodrigues é professor de língua e literatura grega na USP. fonte

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