Licensa

20/07/2012

Livro Contado na CRESCER - Marcelino Pedregulho por Cia Truks





Título do Livro

O garoto tem a cara vermelha, mas não está ruborizado. Também não está resfriado. Também não pegou friagem no rosto. Não há nada de errado com o menino; ele apenas tem a cara vermelha, assim como seu melhor amigo espirra o tempo todo sem explicação razoável.


O garoto de cara vermelha é Marcelin Caillou, um herói da literatura infantil francesa criado há 40 anos e que só agora chega ao Brasil. Virou Marcelino Pedregulho em edição da Cosac Naify (124 págs.), com tradução de Mario Sérgio Conti.

Quatro décadas atrás, quando o desenhista Jean-Jacques Sempé, hoje com 77 anos, criou Marcelino Pedregulho, o homem pisava na Lua, os hippies dançavam sob a chuva e a lama em Woodstock, e os americanos jogavam napalm sobre os vietnamitas. O que podia fazer, nesse cenário, um modesto herói infantil?

Marcelino Pedregulho veio com uma resposta tão simples quanto o traço de Sempé: o planeta precisa aprender a respeitar as diferenças. Se não consegue conviver com o diferente, tem de ao menos aceitá-lo. E precisa valorizar e manter-se fiel àquela genuína pulsão primária dos afetos, dos carinhos, da amizade.

"Marcelino Pedregulho foi inspirado em mim mesmo. Quando eu era jovem, eu era bègue. Sabe o que é bègue?", pergunta Sempé, em entrevista exclusiva ao Estado, por telefone, de sua casa nos arredores de Paris. Não, o repórter não se lembra como traduzir "bègue" do francês. "Eeee-u fa-fa-fa-la-va a-aos so-so-so-qui-qui-nhos, en-ten-ten-ten-deu?"

Sim, agora está claro: Sempé era gago. "Tinha uma enfermidade da dicção, que eu resolvi com o tempo. Mas era bastante desagradável na época, o jeito como as pessoas se portavam em face daquela diferença, o isolamento que isso trazia. Marcelino Pedregulho é uma história contada a partir do ponto de vista dos que são diferentes. É uma metáfora que serve para o racismo, por exemplo", explicou o artista.

Antes de Marcelino Pedregulho, Sempé já tinha criado seu mais famoso personagem, O Pequeno Nicolau, em 1956 - publicado em 1959. Havia acabado de chegar a Paris, e já estreava numa colaboração com outra lenda do traço, René Goscinny (coautor de Asterix). "Quando faço meus livros, não penso nessa questão, se é para crianças ou para adultos. Não faço essa distinção", afirma o cartunista.

Depois de criar capas e cartuns para publicações como Paris Match, Sempé foi contratado em 1978 pela New Yorker, o que impulsionou sua fama para além das fronteiras da Europa (fez mais de 100 capas para a revista).

O jornalista Mario Sérgio Conti parece ter se divertido traduzindo os textos de Marcelino Pedregulho. Batizou personagens com nomes como Dona Florilégia, Rolando Barco, Pedro Pedrosa, Sr. Benezura. Conti viveu seis anos em Paris. Na França, habituou-se a ler (em francês, conta) os trabalhos de Sempé para a filha, Lina, que tinha na época 2 anos. Levou a menina até a Galeria Martine Gossieaux, na Rue de l? Université, para ver uma mostra de originais da obra Sentiments Distingués, de Sempé.

Ao final, a filha, hoje com 9 anos, acabou dando palpites na tradução. Conti, fã e editor do artista (publica seus trabalhos na revista que pilota, a piauí), avalia que a demora em publicar Sempé por aqui talvez se deva ao fato de que o francês trabalha com um humor mais sutil e alusivo. "No Brasil impera o cartum político direto, e o Sempé é mais um crítico social e de costumes". Conti se confessa impressionado com o desenho econômico e o uso farto de espaços em branco. "As figuras respiram, estão soltas. Como a narrativa é lenta, seus cartuns parecem um elogio à liberdade. Desde os anos 60, seus trabalhos criticam a americanização da vida francesa. Ele percebeu muito cedo o impacto da mundialização à americana. A sua abordagem não é nostálgica. Sempé investiga o que se perde quando a identidade social é abalada." fonte

Nenhum comentário:

Postar um comentário