Licensa

19/07/2012

Fora da ordem

Da manhã à noite, usamos as palavras buscando dominar seus sentidos, para submetê-las aos fins práticos da comunicação em casa, no trabalho, na rua. Queremos, apenas, que elas sirvam ao que pretendemos dizer. Que evitem causar surpresas a ouvintes ou leitores e garantam o recebimento da mensagem com o menor risco de ambiguidade. Que funcionem, sejam úteis, mas sejam também modestas, transparentes, e não atraiam a atenção sobre si. Chega uma hora, no entanto, em que as palavras se rebelam. Gritam todas: “Olhem pra mim!”. E passam a mostrar-se em composições diferentes daquelas em que surgem todos os dias. Nada de recato. Elas se exibem. Em lugar de diminuir os sentidos, passam a esbanjá-los. Elas brincam, desordenam, exageram, rompem com as convenções. Dizem o que, de hábito, não costumam dizer. Quando isso ocorrer, preste atenção, porque é possível que as palavras estejam em estado de poesia. Você já viu acontecer muitas vezes. Já encontrou essas palavras em páginas de livros, na tela do computador, em demonstração da força expressiva que elas contêm. Se recorrer à memória, vai lembrar. Poderá, então, dizer, para si ou para outro, não importa, qual manifestação poética foi, em sua vida, a mais marcante. Pode ter sido um único verso ou uma estrofe. Um poema inteiro, talvez.
Lígia Cademartori é doutora em Teoria da Literatura. Foi professora do Curso de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Brasília (UnB). Como conferencista, participou de congressos na Universidade de Lisboa, em Portugal, e na Universidade de Tulane, nos Estados Unidos. Tem participado como jurada, do Prêmio Jabuti – Câmara Brasileira do Livro – e de comissões de seleção de livros de literatura do PNBE/MEC 2005 e 2007 e de vários outros concursos literários. Faz crítica literária no suplemento “Pensar” do Correio Braziliense.

Milton Viola Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012), mais conhecido como Millôr Fernandes, foi um desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista brasileiro.
Começou a trabalhar ainda jovem na redação da revista O Cruzeiro, iniciando precocemente uma trajetória pela imprensa brasileira que deixaria sua marca nos principais veículos de comunicação do país. Em seus mais de 70 anos de carreira produziu prolífica e diversificadamente, estendendo sua criatividade ao jornalismo, literatura, artes, teatro, cinema e até ao esporte. Em seus trabalhos costumava valer-se do humor para criticar o poder e as forças dominantes, sendo em consequência confrontado constantemente pela censura. Dono de um estilo singular, era visto como figura desbravadora no panorama cultural brasileiro: no teatro, por exemplo, empreendeu uma revolução no campo da tradução de peças, tanta era diversidade e a personalidade que impunha aos trabalhos – características que se manifestavam também em suas incursões como autor, artista plástico, jornalista e pensador.
Com a saúde fragilizada após sofrer um acidente vascular cerebral no começo de 2011, morreu em março de 2012, aos 88 anos. fonte

 

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