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30/06/2012

UM BEM-TE-VI MANOEL DE BARROS - CD CRIANCEIRAS

MÁRCIO DE CAMILLO
O compositor foi criado em MS, onde compôs a base inicial do seu estilo. Recentemente musicou as poesias de Manoel de Barros para o público infantil no CD ‘Crianceiras’. Márcio possui canções gravadas por Renato Teixeira, Zé Geraldo, Sérgio Reis e outros. Ele também atua como produtor cultural e realizou importantes projetos que destacam a música regional brasileira, como os shows ‘Violas do Brasil’ (2004) e ‘Música do Brasil Central’ (2011) e o disco CD ‘GerAções MS’ (2006).
Gravou | CD ‘Olhos D’Água’ – Paradoxx Music | CD ‘Telepaticamente’ – Produção: Mário Manga – Participação: Zé Geraldo | CD/DVD ‘Márcio de Camillo Ao Vivo’ – Participação: Jerry Espíndola. Produção Jerry com a participação. Filho dos Livres | CD ‘Me Deixar Levar’ | CD ‘Crianceiras‘, baseado em poemas de Manoel de Barros.


BARROS, Manoel de. Um bem-te-vi, In: Compêndio para uso dos pássaros. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 1999. P.31.
Ah, Manoel de Barros ... Poeta que se vale do ambiente natural de sua terra natal e retrata através das palavras, como um “take fotográfico”, imagens simples e precisas da natureza como o banho de um bem-te-vi... Primeiramente é feita uma descrição do cenário natural: O leve e macio/raio de sol/ se põe no rio./faz arrebol; percebe-se a mistura de dois órgãos dos sentidos humanos: o tato e a visão, com a finalidade de retratar o pôr-do-sol no rio com suas cores amarelo/vermelho/alaranjadas. As reticências representam o entardecer desse dia com as suas propagações de cores quentes e marcantes.
Na segunda estrofe, inicia-se a descrição da motivação do presente poema, o bem-te-vi. Ele surge, em voo do alto da árvore e na passagem dessa estrofe para a próxima, o eu - lírico faz uma pausa para representar o voo da ave: e, de um salto/pousa envergado, assim como na passagem da terceira estrofe para a quarta, delicadamente somos testemunhas do banho do bem-te-vi, seguido do posterior contato das penas do pássaro com a folhagem ao seu redor. Todos esses acontecimentos se sucedem encadeados na passagem de uma estrofe para outra, na tentativa de representar, em palavras, uma imagem tão corriqueira da natureza.
Por fim, os versos De arrepio, na cerca/já se abriu e seca nos remete ao movimento ligeiro que as aves fazem quando se secam após um banho.
Eis mais um exemplo de beleza literária que busca eternamente retratar a vida através de recursos linguísticos excepcionais que nos presenteiam com versos de muita leveza, beleza e singeleza.Termino assim, com uma citação do autor do poema:
"Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando". [Manoel de Barros]
UM BEM-TE-VI MANOEL DE BARROS - CD CRIANCEIRAS
Making of da gravação do CD Crianceiras. Poesia de Manoel De Barros musicadas por Márcio de Camillo.
Vídeo poesia - Manoel de Barros
O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios
Não gosto das palavras
fatigadas de informar,
dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
Eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros inventa para as palavras novos relacionamentos, novas formas, novas expressões... não tem intenções didáticas nem moralizantes.
A palavra, como ele diz, ou a linguagem pode ser usada para informar, para formar ou ainda para divertir, emocionar, transformar! PENSE COMO TEM USADO SUAS PALAVRAS! Elas podem fazer viver ou morrer... fonte
Historias da unha do dedão do pé do fim do mundo
Poemas de Manoel de Barros. Desenhos de Evandro Salles. Video integrante da exposição "Arte para Crianças".
''Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. (...) Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos (...).''

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