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26/05/2012

Vida Que Ninguém Vê - Eliane Brum


Dando continuidade a elaboração do arquivo com os livros recebidos pelo PNBE 2012 (Programa Nacional Biblioteca da Escola) deparei-me com a obra de Eliane Brum – “Vida Que Ninguém Vê”. O título, bastante sugestivo, chamou-me a atenção. Na busca pela sinopse e algumas informações sobre a autora, percebi rapidamente que esse é um daqueles livros que a gente não pode deixar de ler (...).
Apesar do tempo “escasso”, mas imbuída de uma grande “curiosidade” e impulsionada pelo “vicio” da leitura, comecei a ler o primeiro texto. Foi o bastante para decidir (...) terei que ler essa obra também até o fim (...)
Resenha do livro "A vida que ninguém vê"
Vídeo produzido por João Luiz Guarneri para o blog do evento de Jornalismo e Literatura da UNIBRASIL no qual a autora se fez presente no dia 29 de abril de 2009.
Dez histórias sob o olhar de Eliane Brum
A premiada jornalista Eliane Brum, repórter especial de ÉPOCA, lança seu terceiro livro, O Olho da Rua, em que traz um relato ampliado de dez reportagens publicadas na revista. Além disso, oferece ao leitor um making of de cada história, com uma reflexão sobre as limitações do trabalho jornalístico.
Provocações - Programa 553 com a repórter Eliane Brum - 07/02/2012 - Bloco 1
Um bom repórter tem dois instrumentos: o olhar e a escuta. Essa é a opinião da repórter especial Eliane Brum, que atualmente tem uma coluna semanal no site da revista Época. Esta entrevista me fez lembrar do texto que colocarei abaixo:
A Janela
Certa vez, dois homens estavam seriamente doentes na mesma enfermaria de um grande hospital. O cômodo era bem pequeno e nele havia uma janela que dava para o mundo. Um dos homens tinha como parte do seu tratamento, permissão para sentar-se na cama por uma hora durante as tardes (algo que tinha a ver com a drenagem de fluido de seus pulmões). Sua cama ficava perto da janela. 

O outro, contudo, tinha de passar todo o seu tempo deitado de barriga para cima. Todas as tardes, quando o homem cuja cama ficava perto da janela era colocado em posição sentada, passava o tempo descrevendo o que via lá fora.

A janela dava para um parque onde havia um lago. Havia patos e cisnes no lago, e as crianças iam atirar-lhes pão e colocar na água barcos de brinquedo. Jovens namorados caminhavam de mãos dadas entre as árvores, e havia flores, gramados e jogos de bola. E ao fundo, por trás da fileira de árvores, avistava-se o belo contorno dos prédios da cidade.

O homem deitado ouvia o sentado descrever tudo isso, apreciando todos os minutos. Ouviu sobre como uma criança quase caiu no lago e sobre como as garotas estavam bonitas em seus vestidos de verão. As descrições do seu amigo eventualmente o fizeram sentir que quase podia ver o que estava acontecendo lá fora…

Então, em uma bela tarde, ocorreu-lhe um pensamento: Por que o homem que ficava perto da janela deveria ter todo o prazer de ver o que estava acontecendo? Por que ele não podia ter essa chance? Sentiu-se envergonhado, mas quanto mais tentava não pensar assim, mais queria uma mudança. Faria qualquer coisa!

Numa noite, enquanto olhava para o teto, o outro homem subitamente acordou tossindo e sufocando, suas mãos procurando o botão que faria a enfermeira vir correndo. Mas ele o observou sem se mover… mesmo quando o som de respiração parou. De manhã, a enfermeira encontrou o outro homem morto e, silenciosamente, levou embora o seu corpo.

Logo que pareceu apropriado, o homem perguntou se poderia ser colocado na cama perto da janela. Então o colocaram lá, aconchegaram-no sob as cobertas e fizeram com que se sentisse bastante confortável. No minuto em que saíram, ele apoiou-se sobre um cotovelo, com dificuldade e sentindo muita dor, e olhando para fora da janela viu apenas um muro...

"E a vida sempre é, sempre foi e sempre será aquilo que a tornarmos".

Esta mensagem nos convida a muitas reflexões sobre a forma como encaramos as nossas dores, as nossas alegrias, os nossos problemas e as nossas dificuldades. Vemos como duas pessoas em situações semelhantes reagiram diante das possibilidades que se apresentaram para elas. Cada um de nós vê o mundo sob a ótica dos nossos horizontes.
Provocações - Programa 553 com a repórter Eliane Brum 
- 07/02/2012 - Bloco 2
"A elite brasileira não sabe sobre a periferia e sobre a Amazônia". Eliane Bum fala muito sobre a "escuta". A autora dá voz e vez a quem nunca tinha sido ouvido até então. Isso me fez lembrar do texto que postarei a seguir:
O tamanho varia conforme o grau de envolvimento.
Uma pessoa é enorme para mim, quando fala do que leu e viveu, quando trata de mim com carinho e respeito, quando me olha nos olhos e sorri destravadamente.

É pequena quando só pensa em si mesma, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a parceria nos sentimentos e ações.

Uma pessoa é gigante quando se interessa pela minha vida, quando procura alternativas para o meu crescimento, quando sonha junto comigo.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. 

Uma pessoa pode apresentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas. Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

É difícil conviver com esta elasticidade : as pessoas agigantam-se e encolhem-se aos nossos olhos.

O nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações.

Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande... É a sua sensibilidade, sem tamanho.


Provocações - Programa 553 com a repórter Eliane Brum - 07/02/2012 - Bloco 3


Ser repórter exige "humildade" (...) Eu sou "focada" no que eu faço (...) "Eu não quero perder a morte. Eu acho que a morte está sendo roubada da gente" (...) 

Morte do Leiteiro Carlos Drummond de Andrade
Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morados na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

Para finalizar esta postagem (que acabou ficando mais longa do que eu desejava e esperava), postarei o primeiro texto do livro "Vida Que Ninguém Vê - Eliane Brum". 


O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva.
Inclui.
Esta é a história de um olhar. Um olhar que enxerga. E por enxergar, reconhece. E por reconhecer, salva.
Esta é a história do olhar de uma professora chamada Eliane Vanti e de um andarilho chamado Israel Pires. (...) Para ler o texto na íntegra - clique aqui

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