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08/05/2012

O casaco de Pupa - Elena Ferrándiz

"Aquilo que a lagarta chama de fim do mundo, o resto do mundo chama de borboleta" -
Lao Tse
Hoje estava me dedicando (além da leitura dos semanários, que é a minha rotina nas terças-feiras) a "construção" de um arquivo em PowerPoint com os livros recebidos pelo PNBE 2012: Programa - Biblioteca da Escola. O material é destinado às bibliotecas das escolas públicas que ofereçam anos iniciais do ensino fundamental, educação de jovens e adultos (etapas de ensino fundamental e médio) e educação infantil (creches e pré-escolas). Esta versão do programa teve como novidade a aquisição das obras também em formato Mecdaisy. 

Mecdaisy é uma solução tecnológica que permitirá a produção de livros em formato digital acessível, no padrão Daisy. Desenvolvido por meio de parceria com o Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro - NCE/UFRJ - o Mecdaisy possibilita a geração de livros digitais falados e sua reprodução em áudio, gravado ou sintetizado.

Este padrão apresenta facilidade de navegação pelo texto, permitindo a reprodução sincronizada de trechos selecionados, o recuo e o avanço de parágrafos e a busca de seções ou capítulos. Possibilita também, anexar anotações aos arquivos do livro, exportar o texto para impressão em Braille, bem como a leitura em caractere ampliado. Todo texto é indexado, facilitando, assim, a manipulação através de índices ou buscas rápidas.

Além dos benefícios do Mecdaisy às pessoas com deficiência visual ou física que podem ter acesso à leitura sob a forma de áudio e texto digital, destaca-se que está disponível a metodologia para geração de livros neste padrão, que poderá ser utilizada gratuitamente nas escolas e instituições de educação superior, para garantia da acessibilidade.
Um dos livros recebidos chamou minha atenção: pela beleza das imagens, pelo tema que aborda enfim (...) pelas inferências e conexões que a leitura dessa obra me proporcionou (...). É fascinante! Por tudo isso, compartilho com vocês o texto e aproveito para estabelecer uma intertextualidade com o poema de Drummond.
"O casaco de Pupa" - Elena Ferrándiz
Toda manhã a menina metia-se no casaco de medos que usava desde pequenina e que foi crescendo com ela. E saía pelas ruas, coberta de MEDOS.
MEDO da solidão.
MEDO que não a queiram.
MEDO que a queiram.
MEDO de voar.
MEDO de afogar-se.
MEDO de sentir-se perdida.
MEDO que tudo mude.
MEDO que tudo continue igual. Igual, igual, igual, igual...
MEDO do futuro.
MEDO de repetir o passado. Passado.
MEDO de não avançar.
MEDO de dar um passo.
MEDO dos outros
MEDO dela mesma.
O casaco ficou pesado demais e ela já não conseguia ir a lugar nenhum. Então, encheu-se de coragem e resolveu livrar-se dele!
E voou.

O medo - Carlos Drummond de Andrade

A Antônio Cândido

"Porque há para todos nós um problema sério...
Este problema é o do medo."
(Antonio Cândido, Plataforma de Uma Geração) 

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

2 comentários:

  1. Rose, vc é muito dedicada! Faz uns 2 meses que nem visito meu próprio blog. Posta os livrinhos que vc está lendo junto com suas anotações. Parabéns, é um exemplo essa inteligência e dedicação.

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    1. Obrigado, nem sei o que dizer... Amo o que faço!!! Apesar das dificuldades (que não são poucas) tenho me realizado como profissional, pessoa, mãe, esposa, mulher, etc (nos papéis que vivemos na vida...Aliás na biblioteca da nossa escola tem um livro que vale a pena ser lido com esse título).
      Nossa escola foi e está sendo uma escola para mim... cada aluno, professor, funcionário, pai, mãe, contribuem para o meu crescimento pessoal e profissional. Dizem que a vida começa depois dos 40 rsrsrs Acho que é verdade.... recomecei...
      Muito obrigado pela participação, elogio e incentivo. Você não tem noção de como isso é importante para mim e o quanto me emocionou.
      Beijos com carinho
      Rose

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