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01/05/2012

Consumidor, Consumo e Consumismo!

A poesia é uma forma de expressão que fala acima de tudo à emoção.

EU ETIQUETA
Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia,
tão diversos de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
Ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que nos rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.



Resenha do poema “Eu, etiqueta” de Carlos Drummond de Andrade 
(...) "aborda as necessidades que as pessoas têm da própria imagem, consequentes certamente da busca pela satisfação pessoal obtida perante e pelo olhar dos outros. Isso é muito esclarecido no texto de Aranha e Martins em Filosofando.
O verso “é doce estar na moda, ainda que a moda seja negar minha identidade” faz com que transpareça a moda não somente como um produto apenas, mas como a promessa da satisfação de uma necessidade que para algumas pessoas é praticamente vital.
Na atual sociedade do consumo, o ser industrial se tornou o homem anuncio itinerante, movido pelos apelos emocionais da propaganda modelizante, que modela o comportamento das pessoas e que aos poucos acabam perdendo a própria identidade.
E fazem de mim homem anuncio itinerante” este é outro verso especial que revela como o homem se tornou “objeto pulsante mas objeto”, assim transparece a falta de subjetividade das pessoas, estas que muitas vezes acabam fazendo propaganda de graça, na busca de quem sabe ser aceito em algum grupo ou comunidade.
Drummond nos deixa claro que o ter substituiu o ser em várias áreas do pensamento moderno, este que aos poucos se tornou extremamente industrial, “que se oferece como signo de outros”. Drummond de mãos dadas com Aranha e Martins entram em concordância potencial ao afirmarem que a vivencia do cidadão atual está repleta de vontades e anseios industriais, entretanto permanece carente de desejos sobretudo pessoais, como se mantinha outrora"(...).
Estratégias para a preparação da leitura e leitura efetivamente:
1. Releia o poema de Drummond e escreva como você se sentiu ao lê-lo.
2. Vamos investigar o vocabulário do poema?
  • O professor pode pedir aos alunos que desenhem um boneco em uma folha grande de papel (Kraft). O ideal é que o boneco seja do tamanho dos alunos. Para isso, um dos alunos pode deitar-se sobre o papel para que seu contorno seja feito.
  • O segundo passo é dar a esse boneco um nome, ou seja, os alunos criarão um personagem: Que nome ele terá? Como ele pensa? Do que gosta? Qual sua idade? Como é sua família? etc. O professor não deve dizer qual o objetivo desta atividade.
  • Por último o professor deverá pedir como lição de casa, que todos procurem e recortem de jornais ou revistas vários tipos de logotipos de marcas de produtos, mas não deve dizer aos alunos para que esses logotipos servirão.
  • No dia seguinte, quando os alunos trouxerem os logotipos, juntarão os mesmos e “vestirão” o boneco.
  • Depois disso o professor deve conversar com os alunos a respeito do que pensam sobre o boneco estar daquela forma, que sensação aquela “roupa de etiquetas” lhes causa.
  • Agora sim, o professor lê o poema de Carlos Drummond de Andrade, fazendo de conta que é o personagem que os alunos criaram. Depois do poema lido, deve-se abrir uma discussão livre em sala para que os alunos digam o que acharam, o que entenderam do poema etc.

Objetivos e estratégias das questões propostas:

  • 1ª questão: Como essa questão é pessoal, o objetivo é dar ao aluno um espaço para que exponha seu modo de ser. É importante respeitar a vontade do aluno, e deixar a seu critério ler em voz alta ou não sua resposta.
  • 2ª questão: O objetivo aqui é familiarizar o aluno com novas palavras e desenvolver o espírito de competição.
  • 3ª questão: O autor do poema abusa da polissemia no mesmo. Uma dessas palavras polissêmicas é usada nesta questão para trabalhar esse tópico, já que trabalhar todos os significados seria impossível. O objetivo aqui é destacar os diferentes jogos de sentidos produzidos pela polissemia das palavras.
  • 4ª questão: Esta questão dá ao aluno, os sentidos da expressão não provada, afirma a duplicidade de significado que ela assume no poema e pede ao mesmo que observe que, se o poeta tivesse escrito um sinônimo da expressão, já não conseguiria mais obter os mesmos jogos de sentido. O objetivo aqui é fazer com que o aluno perceba que, neste caso, o uso de um sinônimo não é possível.
  • 5ª questão: O objetivo aqui é fazer com que o aluno reconheça a polissemia, o que é bastante desafiador. Depois que cada grupo apresentar os versos e sentidos encontrados, o professor deve abrir a discussão para a classe a fim de ajuda-los a compreender melhor o sentido da poesia e do jogo de palavras.
  • 6ª questão: O objetivo aqui é que o aluno faça uma leitura crítica, para que verifique a posição do autor no momento em que criou o poema.
  • 7ª questão: Aqui o objetivo é fazer com que o aluno enxergue a negatividade do consumismo. O professor deve aproveitar para conversar com a classe sobre o tema sem expor muito sua opinião, ou seja, deixar que o aluno se posicione em relação à questão.
  • 8ª questão: Neste caso, o objetivo é estabelecer a relação entre o título e a significação do poema. É importante que cada aluno exponha sua ideia e opinião a respeito da questão.
Bibliografia
ANDRADE, Carlos Drummond de, Novos Poemas, Record CARVALHO, Carmen Silvia, Construindo a escrita – Leitura e interpretação de textos, Ática

2 comentários:

  1. Ótimas estratégias de leitura!!!
    Vanessa

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    Respostas
    1. Obrigado pela visita!
      Volte sempre!
      Rosemary

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