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05/05/2012

AQUELE CASAL - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

A crônica pode receber diferentes classificações:
- a lírica, em que o autor relata com nostalgia e sentimentalismo;
- a humorística, em que o autor faz graça com o cotidiano;
- a crônica-ensaio, em que o cronista, ironicamente, tece uma crítica ao que acontece nas relações sociais e de poder;
- a filosófica, reflexão a partir de um fato ou evento;
- e jornalística, que apresenta aspectos particulares de notícias ou fatos, pode ser policial, esportiva, política etc.
Por Marina Cabral
Especialista em Língua Portuguesa e Literatura
Aquele casal (Carlos Drummond de Andrade) 

Aquele casal, o marido me honra com suas confidências: 
- Ultimamente, a Elsa anda um pouco estranha. Não sei o que é, mas não me agrada a sua evolução. 
- Como assim? 
- Deu para usar estampados berrantes, de mau gosto, ela que era tão discreta no vestir. 
- É a moda. 
- Pode ser o que você quiser, porém minha mulher jamais se permitiu esses desfrutes. 
- Deixe Dona Elsa ser elegante. Não há desfrute em seguir o figurino. 
- Se fosse só o figurino. São as maneiras, os gestos. 
- Que é que tem as maneiras, os gestos? 
- A Elsa parece uma menina de quinze anos. Ficou com os movimentos mais leves, um ar desembaraçado que ela não tinha, e que não vai bem com uma senhora casada. 
- Posso dar opinião? As senhoras casadas não perdem a condição feminina, e pode até realçá-la por uma graça experiente. 
Fixou-me suspeitoso: 
- Que é que está insinuando? 
- Nada. A mulher casada desabrochou, não é mais um projeto, pode revelar melhor o encanto natural da personalidade. 
- Pois fique com suas teorias, que eu não quero saber de minha mulher revelar seu encanto a ninguém. 
- Perdão, eu... 
- Já sei. Estava querendo desculpar a Elsa. 
- Desculpar de quê? 
- De tudo que ela vem fazendo. 
- Eu ignoro tudo, e adivinho que não há nada senão... 
- Senão o quê? 
- Aquilo que o dicionário chama de ente de razão, uma fantasia completamente destituída de razão. 
- Acha então que estou maluco? 
- Acho que está sonhando coisas. 
- E a flor que ela trouxe ontem para a casa é sonho? Me diga: é sonho? 
- Que é que tem trazer uma flor para casa? 
- Veio do oculista e trouxe uma rosa. Acha direito? 
- Por que não? 
- Eu apertei, ela me disse que foi o oculista que deu a ela. Estava num vaso, ela achou bonita, ele deu. 
- E daí? 
- Então uma senhora casada vai ao oculista e o oculista lhe dá uma rosa? Que lhe parece? - Que ele é gentil, apenas. 
- Pois eu não vou nessa gentileza de oculista. Não há rosas nos consultórios de oftalmologia. E que houvesse. Tem propósito uma coisa dessas? Ela acabou chorando, dizendo que eu sou um bruto, um rinoceronte. Engraçado. Minha mulher vem com uma rosa para casa, uma rosa dada por um homem, e eu não devo achar ruim, eu tenho que achar muito natural. 
- Desde quando é proibido uma senhora ganhar flor de uma pessoa atenciosa? Que sentido erótico tem isso? 
- Tem muito. Principalmente se é rosa. Ora, não tente negar o significado das ordens florais entre dois sexos. O oculista não podia dar essa flor, nem ela podia aceitar. O pior é que não deve ter sido o oculista. 
- Quem foi, então? 
- Sei lá. Numa cidade do tamanho do Rio, posso saber quem deu uma rosa a minha mulher? 
- Vai ver que ela comprou na loja de flores da esquina, e disse aquilo só para fazer charminho. 
- Ela nunca fez isso. Se fez agora, foi para preparar terreno, quando chegar aqui uma corbelha de antúrios e hibiscos. 
- Não diga uma coisa dessas. 
- Digo o que penso. Estou inteiramente lúcido, só me conduzo pelo raciocínio. Repare no encadeamento: os vestidos modernos; os modos (só vendo a maneira dela se sentar no sofá); a rosa, que ela foi correndo levar para a mesinha de cabeceira do quarto. Cada uma dessas coisas é um indício; reunidas, são a evidência. 
- Permita que eu discorde. 
- Discorda sem argumentos. A Elsa não é mais a Elsa. Demora mais tempo no espelho. Fica olhando um ponto no espaço, abstrata. Depois, sorri. Estou decidido. 
- A quê? 
- Vou segui-la daqui por diante. Contrato um detetive. E logo que tenha a prova, me desquito. 
- Não vai ter prova nenhuma, juro. Ponho a mão no fogo por Dona Elsa. 
- Pensei que você fosse meu amigo. Fiz mal em me abrir. Vamos mudar de assunto que ela vem chegando. Mas repare só que os olhos de Capitu que ela tem, eu nunca havia reparado nisso! 
Esquecia-me de dizer que meu amigo tem 82 anos, e Dona Elsa, 79.
Sugestões de trabalho com esse texto:
1. Embora as crônicas, em geral, apresentem características diferentes daquelas de um conto, compartilham com esse gênero alguns de seus traços, sobretudo a concisão. Em “Aquele casal”, por exemplo, há um clímax, algo bastante utilizado em contos, mas não necessariamente em crônicas. Identifique o clímax desse texto. A seguir tente inventar outro clímax para a crônica “Aquele casal” de Drummond. 

2. Uma característica marcante em “Aquele casal” é o fato da narração ser substituída pelo diálogo. Assim o leitor vai gradualmente descobrindo, por meio das falas, a sequência dos acontecimentos. Tente mudar de perspectiva, modificando as personagens do diálogo. Imagine que o narrador é, por exemplo, uma amiga de Elsa, substituindo as falas. 

3. No século XX, o estudo da história passou a conferir atenção especial ao que se costuma caracterizar como “cotidiano”. Diferentemente do relato de grandes acontecimentos, trata-se de ver o indivíduo no modo como se relaciona com a sociedade e na maneira como se representam suas necessidades. A crônica muitas vezes, como a literatura em geral, voltou-se à representação deste homem. Na crônica “Aquele casal” embora o cotidiano seja atravessado pela ficção e por referencias literárias e, alem disso, não se possa dizer que se trate de “um homem comum”, podemos notar, de forma sugerida, alguns códigos amorosos e o modo como são constituídos aos olhos da personagem principal. Tais códigos e comportamentos, contudo, nem sempre foram os mesmos. Tente buscar o olhar da mulher que relata a traição do marido no poema “Caso do vestido”. (postado neste Blog em 11/04/12)

4. Reflita sobre os diferentes modos de conhecer o texto: por meio da leitura do texto impresso ou de sua narração em áudio. Discuta sobre as principais diferenças entre as duas maneiras de receber o conteúdo do texto e qual a sua preferência – ouvir a leitura ou ler diretamente no papel. E para a criança, haverá diferença na compreensão do texto quando utilizamos uma ou outra forma de apresentar o texto? 
Análise da crônica. 

A crônica de Drummond trata da desconfiança de um marido com relação à sua esposa, tema desenvolvido por meio de uma conversa relatada pelo narrador. A principio, o marido confidencia que a mulher, Elsa, anda “um pouco estranha”, e que não lhe agrada “a sua evolução”. Inquirido pelo cronista, começa a descrever em seguida os comportamentos recentes de Elsa, como o uso de roupas de cores vivas, os gestos mais leves, o olhar. 

O narrador desde o início defende “Dona Elsa”, e o fato de chamá-la “Dona” ganhará, ao final, um sentimento inesperado. Os argumentos em sua defesa, entretanto, não convencem o marido que passa a contar um episódio, segundo ele, indicador da infidelidade da mulher. Elsa teria trazido para casa uma rosa que ganhara do oculista. Embora o narrador considere natural o episódio, para surpresa do leitor, que não conhece todas as informações a respeito de ambos, o marido protesta. A rosa provoca uma briga entre o casal. Para ele, oftalmologista não tem rosas em consultórios e, se tivessem, não deveriam dá-las a mulheres casadas. Afinal haveria um significado amoroso nessas “ofertas florais entre os dois sexos”. Tais indícios seriam, portanto, a “evidência” de que Elsa é infiel. É quando em meio a afirmação do narrador de que “põe a mão no fogo”, pela esposa do amigo, Elsa se aproxima. 

A esta altura quase no fim do texto, o leitor pode estar dividido. Elsa não estaria realmente traindo o marido? Seu comportamento não seria suspeito? Na ultima frase da crônica, no entanto, as desconfianças do leitor se desfazem. Nesse momento, o narrador informa o leitor de que o amigo tem 82 anos e Dona Elsa tem 79. O comportamento de Elsa e a rosa dada pelo oculista podem ser vistos, nesse sentido, como insuspeitos na vida de uma senhora de quase 80 anos. A revelação no final causa surpresa e faz rir. Como no fim de um conto, o desenlace reorganiza o sentido da narrativa e convida a sua releitura.

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