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10/04/2012

Literatura na escola - Poemas

Gostaria de esclarecer que os textos escolhidos para esta postagem não são adequados para alunos do primeiro ciclo do ensino fundamental (primeiro ao quinto ano), mas o roteiro de trabalho com os poemas pode ser utilizado como referência para o professor, substituindo, obviamente os textos a serem escolhidos. O leitor pode se perguntar: “porque a escolha deste poeta e desses textos e não de outro adequado ao público com o qual trabalhamos”? Porque o objetivo é justamente oportunizar a ampliação do universo cultural dos leitores e também porque era possível nesse momento “aproveitar” os exemplos dados nas análises.
Lugar - Cyro de Mattos
Ainda que seja
um grão no deserto
o poema é meu lugar
onde tudo arrisco.
Irriga minhas veias
como a chuva à terra
em suas mil línguas.
Antigo, bem antigo,
me anuncia no vale,
me consuma real,
viajante cativo
da solidão solidária.
Sem esse jeito
de ser flor e vento,
sonho e música,
uma coisa só amor,
não há o espanto,
a lágrima, o beijo,
o riso, o epitáfio,
não há o sentido.
Objetivos 
Estimular o gosto pela leitura; 
Desenvolver a competência leitora; 
Desenvolver a sensibilidade estética, a imaginação, a criatividade e o senso crítico; 
Estabelecer relações entre o lido/vivido ou conhecido (conhecimento de mundo); 
Reconhecer a diferença entre sentido literal e figurado; 
Aprofundar-se na particularidade da palavra poética; 
Conhecer algumas características da poética de Baudelaire.

1ª etapa - apresentação: Baudelaire, o poeta do mundo moderno

Charles Baudelaire
Paris, França 1821- 1867 
Órfão de pai aos seis anos, Charles-Pierre Baudelaire viria a odiar o segundo marido da mãe, o general Jacques Aupick. Após anos de desavenças com o padrasto, Baudelaire interrompeu os estudos em Lyon, na França, para fazer uma viagem à Índia. Na volta, participou da Revolução de 1848.
Após esse período conturbado, passou a frequentar a elite aristocrática. Envolveu-se com a atriz Marie Daubrun, a cortesã Apollonie Sabatier e a também atriz Jeanne Duval, uma mestiça por quem se apaixonou e a quem dedicou o ciclo de poemas "Vênus Negra". 
Em 1847, lançou "La Fanfarlo", seu único romance (trata-se, mais propriamente, de uma novela autobiográfica). Dez anos depois, quando se publicaram "As Flores do Mal" ("Les Fleurs du Mal"), todos os envolvidos com o livro foram processados por obscenidade e blasfêmia. Além de pagarem multa, viram-se obrigados a retirar seis poemas do volume original - só publicado na integra em edições póstumas. 
Tanto "As Flores do Mal" como "Pequenos Poemas em Prosa" (póstumos, 1869) introduziram elementos novos na linguagem poética, fundindo opostos existenciais como o sublime e o grotesco.
Entre seus ensaios, destaca-se "O Princípio Poético" (1876), em que fixa as bases de seu trabalho. Nos diários (também publicados postumamente), revela-se profético e radical contestador da civilização moderna.
De 1852 a 1865, Baudelaire traduziu os textos do poeta e contista norte-americano Edgar Allan Poe por quem se entusiasmara já no final da década de 1840. 
Outro Baudelaire, o sifilítico e usuário de drogas, surge em "Os Paraísos Artificiais, Ópio e Haxixe" (1860), uma especulação sobre plantas alucinógenas, parcialmente inspirada pelas "Confissões de um Comedor de Ópio" (1821), do escritor inglês Thomas de Quincey. Há também obras de cunho intimista e confessional, como "Meu Coração Desnudo".
Dissipou seus bens na boemia e na jogatina parisienses. Mergulhado em dívidas, teve de resignar-se a medidas judiciárias tomadas pelos familiares, e um tutor foi nomeado para controlar-lhe os gastos.
Seus últimos anos foram obscurecidos por doenças de origem nervosa. Após uma vida repleta de tribulações, Baudelaire morreu com apenas 46 anos, nos braços da mãe. Seu talento e seu intelecto só seriam totalmente reconhecidos depois. No século 20, tornou-se um ícone, influenciando direta e indiretamente toda a moderna poesia ocidental.
2ª etapa - Leitura compartilhada dos poemas escolhidos pelo professor 
Leia com os alunos o poema escolhido e garanta a compreensão do vocabulário.
O albatroz - Charles Baudelaire
Às vezes, por prazer, os homens de equipagem 
Pegam um albatroz, enorme ave marinha, 
Que segue, companheiro indolente de viagem, 
O navio que sobre os abismos caminha. 

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas, 
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado, 
Deixa doridamente as grandes e alvas asas 
Como remos cair e arrastar-se a seu lado. 

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo! 
Ave tão bela, como está cômica e feia! 
Um o irrita chegando ao seu bico em cachimbo, 
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia! 

O poeta é semelhante ao príncipe da altura 
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar; 
Exilado no chão, em meio à corja impura, 
As asas de gigante impedem-no de andar.
O Homem e o Mar - Charles Baudelaire
Homem livre, hás de sempre amar o mar,
O mar é teu espelho e contemplas a mágoa
Da alma no desdobrar infindo de sua água,
E nem teu ser é menos acre ao se abismar.

Apraz-te mergulhar em tua própria imagem;
O olhar o beija e o braço o abraça, e o coração
No seu próprio rumor encontra distração,
Ao ruído desta queixa indômita e selvagem.

Mas ambos sempre sois tenebrosos e discretos:
Homem, ninguém sondou teus fundos abismos,
Mar, ninguém viu jamais teus tesouros íntimos,
Porque muito sabeis guardá-los secretos!

Porém passados são séculos inumeráveis
Sem que remorso ou pena a vossa luta corte,
De tal modo quereis a crueldade e a morte,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!
A Música - Charles Baudelaire
A música para mim tem seduções de oceano! 
Quantas vezes procuro navegar, 
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano, 
Minha pálida estrela a demandar! 

O peito saliente, os pulmões distendidos 
Como o rijo velame d'um navio, 
Intento desvendar os reinos escondidos 
Sob o manto da noite escuro e frio; 

Sinto vibrar em mim todas as comoções 
D'um navio que sulca o vasto mar; 
Chuvas temporais, ciclones, convulsões 

Conseguem a minh'alma acalentar. 
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera, 
Que desespero horrível me exaspera!
Paráfrase
A paráfrase é a primeira parte da análise. A ela corresponde à resposta da questão "o que fala o poema?". É uma espécie de explicitação do sentido literal do texto, por mais evidente ou estranho que isso possa parecer. 
Exemplo: O poema fala sobre um albatroz capturado por marinheiros de um navio. Impedida de voar, a ave, imponente nos céus, reduz-se a uma figura desengonçada, cômica e feia, arrastando pelo chão suas enormes asas. O Eu lírico compara o albatroz ao poeta, que se sobressai no terreno do elevado, mas move-se mal ao rés-do-chão.
Hipótese interpretativa
Existe uma espécie de paradoxo entre análise e interpretação. Se por um lado a interpretação é uma consequência do que foi investigado na análise, por outro é a própria interpretação que norteia a análise toda. 
Quando começamos a analisar um poema, estamos buscando elementos para atingir o seu sentido mais profundo. Ao mesmo tempo, desde o início temos em mente uma possibilidade de leitura, uma hipótese interpretativa. O que vamos fazer aqui é torná-la consciente. 
Exemplo: A comparação entre o poeta e o albatroz refere-se aos temas da poesia. O poeta seria capaz de produzir versos belos quando figura temas elevados, como o amor, a vida ou a natureza. No entanto, posto ao nível da vida cotidiana, ele seria incapaz de fazer bons versos. 
Como pode-se notar, há uma distância entre o sentido literal e o figurado desse poema. Para verificar se nossa hipótese tem fundamento, é preciso partir para a análise.
3ª etapa - análise "O albatroz" (um exemplo)
Análise
Analisar é "desmontar" o poema, é verificar de que forma as palavras deixam a sua acepção corrente e ganham a dimensão de imagem. É investigar a organização do discurso poético: quais são as partes que o compõem e como elas se articulam. Cada poema tem inúmeros elementos que, articulados, geram diferentes significações. A ideia não é investigar todos esses elementos de forma mecânica, mas somente aqueles que sirvam para verificar a sua hipótese interpretativa. 
A análise constrói argumentos que sustentam a interpretação. É ela que vai conduzir o leitor através do seu raciocínio. É como se, lendo a sua hipótese interpretativa, o leitor dissesse "não entendi" ou "não concordo". Sua análise é o caminho para convencê-lo.
Se durante o processo de análise perceber que sua hipótese não é central para a compreensão do "sentido profundo" do poema, demonstre, sempre de forma argumentativa, a não centralidade da sua tese anterior (hipótese interpretativa) e formule sua nova hipótese. Com ela formulada, continue a convencer o leitor dos novos rumos da sua análise. Não há problema nenhum em trocar de hipótese. Ao contrário, muitas vezes isso é indício de uma leitura rigorosa. 
Não podemos esquecer também que, em arte, forma é conteúdo. Por isso, é preciso ressaltar a contribuição que alguns aspectos formais possam vir a ter na economia do poema. "Aspectos formais" são elementos que se referem menos diretamente ao que foi escrito e mais ao como foi escrito: as rimas, a divisão em versos, repetições de palavras, refrões, aliterações, assonâncias, as diferentes figuras de linguagem etc. O que, na forma do poema "o albatroz", chama mais atenção? 
Exemplo resumido: O poema "O albatroz" possui uma estrutura simples: todo ele se organiza em torno da comparação entre a ave e o poeta. A primeira estrofe narra o passatempo dos marinheiros de capturar um albatroz para seguir viagem no navio. A segunda, descreve o quanto a ave é desajeitada quando em solo firme. Na terceira estrofe o Eu lírico se dirige ao albatroz e manifesta seu espanto diante da feiúra do bicho quando este anda ao invés de voar. 
Na última estrofe o Eu lírico, ao comparar o "príncipe da altura" ao poeta, abre para o sentido figurado a leitura das três estrofes anteriores: o poeta, ao rés-do-chão, é cômico e feio, e aquilo que o eleva aos céus o impede de andar "em meio à corja impura". 
Para compreender "O albatroz" e alguns elementos essenciais da poética de Baudelaire, é preciso conhecer sua importância para a poesia moderna e seu lugar na história da literatura ocidental. Por isso, a análise agora dará lugar ao comentário.
4ª etapa - O comentário
Em alguns poemas, a análise solicita informações externas à obra para elucidar seu sentido mais profundo. "A partir de agora, [o poema] será concebido não como um todo autônomo, mas parcela de um todo maior. Assim como as partes do poema são elementos de um conjunto próprio, o poema por sua vez é parte de um conjunto formado pelas circunstâncias de sua composição, o momento histórico, a vida do autor, o gênero literário, as tendências estéticas de seu tempo, etc. Só encarando-o assim teremos elementos para avaliar o significado da maneira mais completa possível (que é sempre incompleta, apesar de tudo)", diz Antonio Cândido no livro Na sala de aula: caderno de análise literária.
Exemplo resumido: Charles Baudelaire é considerado o precursor da poesia moderna. Ele percebeu como ninguém a mudança de sensibilidade inerente à vida agitada das grandes cidades da era industrial. No mundo moderno, não há mais lugar para a comoção lírica e o poeta precisa se adaptar aos novos tempos. Para Baudelaire, o poeta moderno deve abandonar o belo sublimado da poesia romântica e descer ao rés-do-chão para falar com um leitor cuja sensibilidade está habituada a vivências de choque. Os leitores dessa nova realidade têm os sentidos hiperexcitados pelo mundo das mercadorias e estão pouco afeitos a efusões líricas. Têm a sensibilidade embotada e a imaginação reduzida. Por isso, mundo moderno exige uma nova poesia, que encontre beleza no feio, na lama, na miséria. Baudelaire reivindicou a todos os aspectos da realidade, inclusive os mais horrendos e grotescos, o direito de serem figurados na linguagem poética.
5ª etapa - a interpretação
Interpretar significa escolher uma leitura entre outras possíveis. A interpretação corresponde à resposta da questão "do que fala o poema". Ela é a exposição de seu sentido profundo. É ele que estamos buscando desde o início. É também agora que vamos refazer de forma sintética o caminho da primeira hipótese, a "hipótese interpretativa", até a formulação final que fizemos durante o processo de análise e concluir o trabalho. 
Exemplo resumido: Dissemos na hipótese interpretativa que a comparação entre o poeta e o albatroz referia-se aos temas da poesia. Após a análise ter lançado mão do comentário, podemos ampliar nossa primeira hipótese: 
Ao comparar o poeta ao albatroz, Baudelaire clama uma adaptação dos poetas a realidade do mundo moderno. É preciso que o poeta abandone os vôos altos da sublimação romântica e aprenda a andar com os pés no chão, escolhendo como tema de poesia tudo o que a vida oferecer, incluindo o que choca por ser feio, fétido, desagradável ou grotesco.
6ª etapa - tudo é matéria para a poesia 
Leia com a turma outros poemas para mostrar como Baudelaire usou todo tipo de tema como matéria para seus versos. 

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