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08/04/2012

Censurar dicionários?

Sou uma grande admiradora do trabalho deste professor. Por isso, sempre que for possível farei alguma postagem sobre suas obras ou comentários sobre matérias da sua coluna: "Palavreado" da Revista Ciência Hoje. Espero que vocês também gostem!
No embalo de ação do MP contra o ‘Houaiss’, Sírio Possenti retoma, em sua coluna de março, a função básica desse tipo de obra. Para o linguista, tirar uma palavra do dicionário equivale a tirar um animal do catálogo da fauna.

Por: Sírio Possenti

Publicado em 23/03/2012 | Atualizado em 23/03/2012

Censurar dicionários?


Dicionários são catálogos de palavras. Registram sua grafia ou grafias, sua história e seus sentidos. Não faz sentido que essas obras deixem de registrar ‘fatos’ em decorrência de uma avaliação negativa deles, defende linguista. (foto: Carla Almeida) 
Discutiu-se um pouco, nas últimas semanas, sobre dicionários. Mais exatamente, foram tornadas claras algumas características e funções dessas obras. Todos os que se pronunciaram reafirmaram verdades óbvias. É de esperar que a maioria das pessoas tenha uma ideia clara sobre o que seja um dicionário.
O que levou às recentes manifestações foi uma inusitada ação do Ministério Público, acionado por um cidadão que considerou que dicionários ofendem grupos (etnias etc.) ao registrarem acepções negativas de certas palavras. Concretamente, houve uma ação do MP contra o Dicionário Houaiss, por registrar acepções de “cigano” consideradas ofensivas (“aquele que trapaceia, velhaco, burlador”).
Pode-se ver melhor o caso na versão on-line do referido dicionário, até porque as acepções consideradas ofensivas tinham sido retiradas do ar, em decorrência da ação ou de sua divulgação. Mas, pouco tempo depois, foram repostas, com uma explicação sobre a origem daquelas acepções (talvez em decorrência das manifestações contra a ação): “Uso: as acepções 5 e 6 resultam de antiga tradição europeia, pejorativa e xenófoba por basear-se em ideias errôneas e preconcebidas sobre as características deste povo que no passado levava uma existência nômade”.

Verbete 'cigano'



Após ação do Ministério Público, o verbete 'cigano' ganhou no 'Dicionário Houaiss' uma explicação sobre a origem de acepções da palavra consideradas negativas. (imagem: reprodução)

Algumas coisas já poderiam estar claras nesta altura da história. Uma delas é que cada obra tem uma função diferente nas sociedades. Jornais informam e opinam, romances e filmes contam histórias seguindo determinadas técnicas, catálogos registram objetos (os de pássaros registram pássaros, os de flores, flores). Mapas registram dados geográficos, coletâneas de piadas registram piadas, e as de provérbios, provérbios. Algumas não deveriam existir? Pode ser. Mas não faz sentido deixar de registrar ‘fatos’ em decorrência de uma avaliação negativa deles (como deixar de registrar o impeachment de Collor em uma exposição das atividades no Senado?!).
Dicionários são catálogos de palavras. Registram sua grafia ou grafias, sua história e seus sentidos. Quase todas as palavras têm diversos sentidos ou usos (o Houaiss registra 57 acepções de “ponto” e 15 de “doce”, por exemplo). Se o dicionário é bem feito, se resulta de boa pesquisa, incluirá as acepções das palavras e assinalará também o efeito ou a origem de certos usos: se as palavras ou os sentidos e usos são populares ou eruditos, se são técnicos, se conotam preconceitos etc. 
Existem dicionários de gíria, de palavrões, de regionalismos, de economia, de psicanálise, de arte, de sociologia, de sonhos... O que se espera de um bom dicionário de cada uma dessas especialidades é que registre o máximo de palavras e de seus usos e sentidos em cada campo, exatamente como de um catálogo de animais ou de plantas se espera o melhor e mais minucioso registro da fauna e da flora.
Dicionário não inventa palavras, não inventa os sentidos das palavras, não incentiva uso de palavras em sentidos desabonadores. 
Mas não ocorre a nenhum dicionarista imaginar que o registro de palavras ou sentidos seja uma atividade relacionada à questão da liberdade de expressão ou com “albergar” posições preconceituosas. Recorro de novo às comparações: registrar um animal nocivo não implica apoiar que ele mate; registrar uma planta carnívora não implica combatê-la em tempos de defesa da alimentação vegetariana; estudar cânceres não implica ser favorável ao aumento do número de casos dessas doenças.
Assim, a censura a um dicionário não é medida adequada para combater preconceitos. Dicionaristas não enunciam, não proferem, não assumem, não se comprometem com o que registram. Registram que determinado objeto existe e que tem certas origens e conotações. 
Foi a sociedade, durante sua história, que produziu e manteve vivas as palavras e seus sentidos.

Para ver texto na íntegra - clique aqui
Conheça o colunista

Sírio Possenti



Possenti nasceu em Arroio Trinta, em Santa Catarina. É licenciado em Filosofia e tem mestrado e doutorado em Linguística pela Unicamp, onde é professor desde 1979. No Instituto de Estudos da Linguagem da universidade, ensina e pesquisa análise do discurso, com atenção especial para o humor.
Tem interesse nos discursos jornalístico e publicitário, e dedica-se ao exame de textos breves, especialmente piadas, pequenas frases e fórmulas. 
Publicou Discurso, estilo e subjetividade (1988), Os humores da língua (1998), Por que (não) ensinar gramática na escola (1996), Os limites do discurso (2002), Questões para analistas do discurso (2009) Humor, língua e discurso (2010) e Questões de linguagem: passeio gramatical dirigido (2011). Traduziu Gênese dos discursos, de Dominique Maingueneau.


Isso sim, deve nos preocupar e ocupar nosso tempo...



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