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11/04/2012

Caso do vestido - Carlos Drummond de Andrade

Aproveitando o “gancho” com a postagem anterior em que eu termino dizendo: "6ª etapa - tudo é matéria para a poesia. Leia com a turma outros poemas para mostrar como Baudelaire (ou outro poeta) usou / usa todo tipo de tema como matéria para seus versos". Colocarei abaixo um dos poemas mais belos que eu conheço: Caso do vestido.
Composto por setenta e três dísticos de versos regulares, este poema tem uma estrutura dramática (teatral), já que apresenta personagens, diálogos, e progressão de enredo, com clímax e desfecho. A abertura do texto dá-se através de um diálogo entre as filhas curiosas e a mãe:
Caso do vestido - Carlos Drummond de Andrade
Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Em todo o poema há uma atmosfera de expectativa e tensão, seja pela terrível história que a mãe vai relatar, seja pela iminente chegada do pai. Sofridamente, a mulher conta a loucura do marido que se apaixonou por uma “dona de longe”: 

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

M afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

A “dona”, no entanto, recusa o assédio. Irado e abatido, o marido pede a sua própria esposa que fosse implorar o amor da estranha. Ao lembrar do ocorrido, no presente, a mãe se emociona e vacila. As filhas lhe oferecem um lenço para que limpe as lágrimas e continue o relato: 

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

A “dona” diz que não ama aquele homem, mas se a mulher insistisse, ficaria com o marido dela.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

A partir deste momento a mãe aspira à morte, mas não morre. Vende seus objetos de estimação (“... meus anéis se dispersaram, / minha corrente de ouro / pagou conta de farmácia.”); precisa sustentar as filhas (“... costurei, lavei, fiz doce,”); envelhece (“... fiquei de cabeça branca, / perdi meus dentes, meus olhos,”). 
Até que um dia a “dona” reaparece, sozinha e abandonada. Vem pedir perdão à mulher que ela tanto ferira e deixar-lhe, como recordação de tamanha perversidade, o último vestido de luxo que ainda possuía. 

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terça,
Was a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pai sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

A mãe olha para esta “dona” destruída em sua beleza, não responde ao seu rogo e pendura o vestido no prego da parede para que ele ficasse ali, como memória dos tormentos. Logo depois, o pai retorna ao lar. E, como se nada tivesse acontecido, pede que a mulher que coloque mais um prato na mesa:

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca me acalentava.

O poema fecha-se em círculo, com a volta ao presente ocorrendo simultaneamente à chegada do pai: 

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.

Verdadeira obra-prima, Caso do vestido, além de ser um drama do cotidiano, desvela a brutalidade masculina da sociedade patriarcal, em que o poeta nasceu e passou a sua infância e o início da juventude. Desta maneira, o poema sobre o cotidiano é, igualmente, um poema sobre o passado. A própria linguagem apresenta vários elementos do coloquial arcaico (“dona”, “evém”, “mui”, etc.), sem contar o uso de formas antigas de tratamento (“vosso”, “vossa”). Porém, o esplendor lírico de Caso do vestido decorre de inúmeros outros fatores: 
a) da capacidade de resignação feminina e dessa misteriosa força vital que impede a mãe de sucumbir (“Só pensando na morte / mas a morte não chegava.”);
b) da pungente e ilimitada paixão da mulher que a arrasta da suprema humilhação ao supremo perdão;
c) da pequena mas genial vingança que consiste em colocar o vestido da “dona” na parede, onde permanecerá como registro perpétuo da perfídia do marido;
d) da crispada expectação que envolve toda a narrativa da mãe, continuamente ameaçada pela chegada do pai;
e) da estrutura teatral que sedimenta o poema, já referida anteriormente;
f) da formulação do poema em dísticos de versos regulares que emprestam ao mesmo um ritmo recitativo;
g) da utilização da linguagem coloquial, enriquecida por um processo estilístico pleno de sugestões, eufemismos, metáforas, elipses, anáforas, aliterações, antíteses e rimas internas. Assim, a espontaneidade da fala da mãe e dos diálogos com as filhas em nenhum verso cai na banalidade, risco de todo o poema que elege o cotidiano como motivo. 

2 comentários:

  1. Anônimo20.6.17

    muito emocionanante, parabéns! lindo lindo lindo

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  2. Anônimo20.6.17

    É um poema realmente para se pensar e apreciá-lo, ótimo. Com certeza estarei fazendo alguma atividade em sala envolvendo-o. Parabéns!

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