Licensa

12/03/2012

Quais são as possibilidades oferecidas pela Literatura Infantil para o Ensino de Ciências?

- aprofundar a análise dos textos e das ilustrações presentes na Coleção Série Lelé da Cuca
- fazer uma identificação de trabalhos, no contexto do Ensino de Ciências, sobre articulações entre este e a Literatura Infantil;
- aprofundar, teoricamente, aspectos da literatura infantil, o papel dos animais neste universo, e como ambos se relacionam com a infância, a fim de estabelecer relações com o Ensino de Ciências, possivelmente como agentes de problematização;
- verificar, nos textos e nas ilustrações, as relações sugeridas/estabelecidas, pelos criadores das histórias, entre os animais-protagonistas e os seres humanos, com a finalidade de problematizar questões ambientais, como preservação, ecologia, diversidade e bioética, entre outros assuntos pertinentes ao Ensino de Ciências.
A Literatura Infantil e o Ensino de Ciências
"Os textos que promovem a leitura interativa construtiva tendem a estimular o leitor a tomar contato com as informações veiculadas e a incorporá-las às suas visões de mundo. Estes textos habilitariam os leitores a reproduzir ou utilizar as informações um bom tempo após terem realizado a leitura, até mesmo em situações não tão similares quanto àquelas apresentadas no texto". (Nigro e Trivelato, 2005:05)
Os animais na literatura infantil
"Ferreira e Melo (2006) acreditam que a utilização de animais, bem como de crianças, no papel de personagens, pode ser uma estratégia para que o leitor-alvo – a criança – se interesse e se identifique com a obra já pela capa".
Análise da Série Lelé da Cuca
Apresentação dos elementos das histórias, os critérios de análise foram:
- a presença do humano como figurante, isto é, se apareciam no texto e/ou na ilustração, porém sem importante atuação na narrativa;
- a presença do humano como coadjuvante, ou seja, se, independentemente da frequência com que aparece na história, tinha atuação importante na narrativa, influenciando o protagonista de maneira marcante, a ponto de fazê-lo assumir uma atitude ou seguir outro rumo em sua vida;
- a presença de outras espécies animais como figurantes; entendendo que o uso da expressão “outras espécies animais” não leva em consideração espécies botânicas nem elementos abióticos, nem tampouco outros exemplares de mesma espécie que a do protagonista. Ainda que saiba que ameba e plâncton não podem nem devem ser considerados como espécies “animais”, assim mesmo os inclui na categoria, para facilitar a elaboração do quadro;
- a presença de outras espécies animais como coadjuvantes;
- o diálogo entre narrador e leitor, ou seja, se o narrador se mantém mais preso à função de meramente narrar a história, ou se ele mantém constante contato com o leitor, emitindo inclusive opiniões e juízos de valor; e, finalmente;
- o diálogo entre narrador e personagem, isto é, se o narrador transforma-se em personagem em alguma situação e interfere na narrativa, “conversando” com algum personagem previamente inserido no texto.
Relações entre personagens, os critérios foram:
- a maneira como o protagonista é apresentado ao leitor, ou, basicamente, as características mais evidentes de sua personalidade;
- a maneira como as demais espécies são apresentadas ao leitor, também no viés da personalidade de cada uma; porém, diferentemente da forma como foi feito com o protagonista, essa análise não teve como fugir do contraponto entre as diversas espécies e o protagonista;
- a maneira como o humano é apresentado ao leitor, também no viés de personalidade;
- a relação entre eles, ou seja, como as três categorias anteriores – protagonistas, demais espécies e humanos – dialogam entre si;
- o argumento/contexto da situação, isto é, se é mais humanizada ou mais animalizada; e
- o cenário da história, isto é, se é natural ou artificial ao protagonista.
Conteúdos e Equívocos Conceituais de Ciências, os critérios foram:
- a identificação de temas de Ciências, ou de assuntos que tenham relação direta com os conteúdos normalmente encontrados nos currículos de aulas de Ciências;
- a identificação de equívocos conceituais de Ciências, ou as abordagens claramente equivocadas ou distorcidas dos temas de Ciências.
Conversação entre ilustração e texto, os critérios foram:
a) os aspectos morfológicos das ilustrações, ou suas características físicas/ as formas utilizadas de representação: atratividade (Dib e col. 2003), coloração, tipo de desenho, e estilo (Carneiro, 1997), entendendo como estilo o modo gráfico utilizado para estabelecer a comunicação visual: realista (representa de forma inteligível a realidade), analógico (implica similaridades entre a ilustração e a realidade) ou lógico (diagramática).

b) os tipos de ilustrações: como apresentado em Carneiro (1997), existem dois tipos, o figurativo (fotografia, desenho) e o funcional (esquema, diagrama, gráfico, mapa).

c) os aspectos funcionais (Martins, 1997) das ilustrações: se são motivadoras (atraem a atenção); sinalizadoras (organizam o conteúdo); ilustradoras (reforçam uma ideia ou argumento); ou descritoras (de procedimentos). Por sugestão dessa autora (Martins, 1997), estes aspectos foram analisados em contraposição com o texto e com o conhecimento científico.

d) os aspectos qualitativos das ilustrações: nitidez, relação imagem-texto, nível de abstração (Carneiro, 1997), e ainda 

e) a natureza pedagógica das ilustrações: se poderiam contribuir para a melhor compreensão do texto e funcionar como elemento estimulador da curiosidade dos estudantes (Carneiro, 1997).

Resultados do Conteúdo: sinopse das oito histórias
A história da Ameba
Vivendo às margens de um pequeno lago, a Ameba sentia-se só, especialmente com a chegada de seu aniversário. Tentou convidar até os peixes do lago, que a ignoraram. Diante de seu insucesso, a Lua, penalizada, ensinou à Ameba que se esticasse bastante o corpo, dividir-se-ia em duas, e repetindo o feito com estas duas, seguiria se dividindo, até ter bastante amigas para animar sua festinha.
A história do Plâncton
Farto de ser considerado apenas comida dos grandes peixes e cheio de talento para pintar, o Plâncton realizou uma revolução marinha, trazendo cores a todos e fama a si mesmo. Graças a isso, os grandes peixes desistiram de comê-lo, e mudaram sua dieta.
A história da Lesma
Por conta de sua natureza glutona, a Lesma enfrenta muitos problemas e causa muitos desastres. Um dia, quando descobriu a salada de uma família de humanos e foi jogada na lata de comida dos mamíferos da fazenda, salvou-se de ser devorada por causa do nojo que gerou nos porcos. Contratada por um fazendeiro, ficou feliz comendo os pulgões que infestavam os feijões. No entanto, mal recebeu seu primeiro ordenado, devorou-o por ser verde.
A história da Aranha
Mesmo animada e simpática, a aranha só faz ser afastada ou atacada pelos humanos, que sempre gritam e buscam chinelos, esponjas e outras “armas” para trucidá-la. A Aranha, sem compreender por que isso acontece, entra em crise existencial e escreve à amiga Formiga, que a aconselha usando de exemplo a colega Abelha, que se sente explorada com o uso do mel. O Besouro replica que o problema está na feiura da Aranha, que tem pernas demais. Mergulhada em sua crise, a Aranha se isola em um cantinho, triste e magoada, sem ver que está entre os pés de um menino. Ele, ao contrário dos demais, a acolhe como amiga. Os dois, felizes com a amizade, terminam a história fazendo estripulias.
A história do Morcego
Havia um Morcego que gostava de ser diferente. Seus colegas de caverna zombavam dele, mas os humanos adoravam tudo o que ele inventava. Um dia o Morcego se mudou para a cidade, e vive até hoje dias de fama.
A história do Tatu
O Tatu desejava fazer parte da Banda da Abelha, mas era um desastre com instrumentos e com o gogó. Quando arriscou tocar com suas próprias escamas, o ritmo saiu contagiante. A Banda afinal o aceitou, e o Tatu ganhou legiões de fãs humanos.
A história do Cão
Mesmo sendo o melhor amigo do homem, o Cão sentia-se solitário, apenas ele e seu osso. Pôs-se em busca de um animal de estimação, mas todas as suas diversificadas tentativas culminaram em desastres. Ninguém servia. Quando então desistiu de procurar, encontrou uma minhoca ao cavar um buraco para seu osso, e achou-a perfeita para ele: pequenina, sem cheiro, e ainda dançava para ele. Seu dono achou o máximo seu Cão ter um animal de estimação: ele ainda lançou moda com a ideia, entre os outros animais de estimação.
A história do Gato
Um tipo descontraído e despreocupado com as aparências, o Gato tinha muitos amigos. Os gatos das madames o adoravam, mas sempre eram resgatados por suas donas furiosas, que acabavam com a brincadeira espantando o amigo maltrapilho e sem pedigree. Tristonho, o Gato buscou conselho com o amigo Gambá, perguntando se o problema era ser fedido. Constrangido com esta questão, que muito afetava sua auto-estima, o Gambá o aconselhou a procurar pelo Ouriço. Este, um tipo de bem consigo, disse que a aparência não era tão importante quanto a essência, mas que assim mesmo, poderia dar uns tratos no Gato, deixando-o tão maravilhoso e elegante, que ia surpreender no concurso de beleza felina. No final, o Gato realmente ganhou o concurso, deixando as madames loucas de raiva. Assim que recebeu o troféu, porém, uma tigela cheia de sorvete, esqueceu a compostura e mergulhou na deliciosa piscina.
Texto
As histórias variam em torno dos problemas enfrentados pelos protagonistas que dão título a cada livro. Porém, de uma maneira geral, tratam de problemas com os quais as crianças, e mesmo os adultos, podem vir a se identificar, tais como solidão, sentimento de inadequação, sensação de perseguição ou de desprezo advindo de outros membros de seu grupo ou do grupo ao qual se deseja pertencer.
Se há uma característica que atravessa todos os textos, é a de sentir-se inadequado ao grupo com o qual se convive, situação bastante comum na vida de muitas pessoas, especialmente de crianças e adolescentes, que, em virtude mesmo da idade e da respectiva etapa de desenvolvimento pessoal, convivem com um processo natural de ajuste à cultura local e global.




Limites e possibilidades de diálogos entre Literatura Infantil e o Ensino de Ciências
Pelos resultados da análise foi possível confirmar as promissoras possibilidades instrumentais desta coleção para o Ensino de Ciências, por exibir, entre outros aspectos: conceitos científicos; equívocos conceituais; relações éticas; animais pouco conhecidos às crianças; outra visão sobre animais já conhecidos pelas crianças; introduções a aspectos atuais de Educação Ambiental, Ecologia e Diversidade. Além disto, a coleção também oferece potenciais subsídios para outras questões relacionadas à Cultura, Discursividade, Ética e Bioética, Educação Moral, entre outros, em um contexto de formação inicial ou continuada de professores para as Séries Iniciais ou de Ciências.

LINSINGEN, Luana von. Literatura infantil no ensino de ciências: articulações a partir da análise de uma coleção de livros. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, SC, 2008. 121p. Para conhecer a pesquisa na íntegra - Clique aqui

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