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05/03/2012

O bom do básico. O professor, um técnico?

Foto: Arquivo VEJA.
A educação brasileira é muito feita de achismos e guiada por intuição. A ideologia costuma se sobrepor à ciência, quando não à própria lógica. Um grupo de especialistas (pequeno, diga-se) já martela nessa tecla há algum tempo, mas poucos falam com tanto conhecimento de causa sobre o assunto quanto o canadense Clermont Gauthier. Não há nada de muito mirabolante na tese central de Gauthier, mas é a simplicidade aí que interessa. 
Com base em suas pesquisas, ele afirma que o ensino precisa ser “estruturado” para funcionar. Entenda-se por isso que, ao entrar numa sala de aula, o professor tenha na mão um plano mínimo de voo, sabendo de onde está partindo e em que lugar pretende chegar. Faz parte de um programa maior, com prazo para ser concluído. Tudo básico, mas pouquíssimo aplicado por aqui. O que mais se vê no Brasil é o oposto: absoluta falta de clareza sobre o que se vai ensinar. 
Essa ausência de norte vem aliada a um ardoroso culto ao construtivismo – que, segundo Gautier, só atrapalha. É coisa da década de 80 para cá, na América Latina de um modo geral. No Brasil, se sedimentaram sobre essa base teórica ideias como a de que é o aluno quem dita o ritmo e o próprio conteúdo das aulas, enquanto ao professor cabe o papel de mediador. Espera-se ainda da escola que ela seja um lugar agradável e prazeroso, sempre. Em seu périplo brasileiro, Gauthier diz que se trata de um equívoco. Não apenas porque a experiência internacional mostra que o caminho para a eficiência acadêmica é contrário a esse – mas também porque as notas dos estudantes brasileiros são péssimas. 
Biografia
Clermont Gauthier é professor de Psicologia Educacional na Faculdade de Educação da Université Laval, localizado na cidade de Quebec. Ele detém a Cátedra de Pesquisa do Canadá no Estudo da Formação de Professores.
A especialista observou nas áreas de formação de professores, as fundações de ensino e prática de ensino, o Dr. Gauthier estudou extensivamente os impactos das mudanças mais importantes sobre as práticas de professores em sistemas educacionais contemporâneos. Ao longo de uma carreira de quase três décadas, ele já publicou 30 livros, cerca de 100 artigos e capítulos de livros, e entregou mais de 200 apresentações em diversas conferências nacionais e internacionais sobre os fundamentos e história da educação, particularmente os de Quebec, como bem como em pedagogia e formação de professores.
O professor, um técnico?
O ensino é uma profissão tão paradoxal que quem a exerce deveria possuir, ao mesmo tempo, as qualidades de estrategista e de tático de um general do exército; as qualidades de planejador e de líder de um dirigente de empresa; a habilidade e a delicadeza de um artesão; a destreza e a imaginação de um artista; a astúcia de um político; o profissionalismo de um clínico-geral; a imparcialidade de um juiz; a engenhosidade de um publicitário; os talentos, a ousadia e os artifícios de um ator; o senso de observação de um etnólogo; a erudição de um hermeneuta; o charme de um sedutor; a destreza de um mágico e muitas outras qualidades cuja lista seria praticamente ilimitada (Barlow, 1999, p. 145-156). 
Tais qualidades remetem à multiplicidade de aspectos do trabalho cotidiano dos professores. Cada qualidade de um professor, cada dimensão do ensino exige o seu oposto. E é exatamente nisso que reside esse caráter paradoxal da profissão que torna inoperante toda redução do papel dos professores a o de simples técnicos  do ensino, como tendem a fazer todos aqueles que conhecem mal esse trabalho (Gagné, 1999; Larose, 1999).
Perrenoud ilustra muito bem a natureza complexa e antinômica do trabalho docente, no qual diariamente estão presentes contradições impossíveis de serem superadas e no qual o professor se depara, a todo momento, com questionamentos insolúveis:
Deveria privilegiar as necessidades do indivíduo ou as da sociedade? Respeitar a identidade de cada um ou transformá-la? Avançar no programa ou atender às necessidades dos alunos? Forjar hierarquias ou praticar uma avaliação formativa? Desenvolver a autonomia ou o conformismo? Envolver-se pessoalmente na relação ou permanecer o mais neutro possível? (...) Dar ênfase aos saberes, aos métodos e à instrução ou aos valores, à educação e à socialização? Valorizar a competição ou a cooperação? Dar a cada um a impressão de que é competente ou levar os alunos a verem a si mesmos com mais lucidez? Dar preferência à estruturação do pensamento e da expressão ou estimular a criatividade e a comunicação? Dar ênfase a uma pedagogia ativa ou à pedagogia do domínio? Respeitar a equidade formal ou dar a cada um segundo suas necessidades? (Perrenoud, 1993, p. 9)
Quer conhecer o texto na íntegra? Então clique aqui.
SOU PROFESSOR 
JOHN W. SCHLATTER
Nasci no momento exato em que uma pergunta
saltou da boca de uma criança.

Fui muitas pessoas em muitos lugares.

Sou Sócrates, estimulando a juventude de Atenas a
descobrir novas ideias através de perguntas.
Sou Anne Sullivan, extraindo os segredos do universo
da mão estendida de Helen Keller.
Sou Esopo e Hans Christian Andersen, revelando a
verdade através de inúmeras histórias.

Sou Marva Collins, lutando pelo direito de
toda a criança à Educação.
Sou Mary McCloud Bethune, construindo uma
grande universidade para meu povo, utilizando
caixotes de laranja como escrivaninhas.
Sou Bel Kauffman, lutando para colocar em
prática o Up Down Staircase.

Os nomes daqueles que praticaram minha profissão
soam como um corredor da fama para a humanidade...
Booker T. Washington, Buda, Confúcio,
Ralph Waldo Emerson, Leo Buscaglia, Moisés e Jesus.

Sou também aqueles cujos nomes foram há muito
esquecidos, mas cujas lições e o caráter serão sempre
lembrados nas realizações de seus alunos.

Ao longo de cada dia tenho sido solicitado como ator,
amigo, enfermeiro e médico, treinador, descobridor
de artigos perdidos, psicólogo, pai substituto,
vendedor, político e mantenedor da fé.

A despeito de mapas, gráficos, fórmulas, verbos,
histórias e livros, não tenho tido, na verdade,
nada o que ensinar, pois meus alunos têm apenas a si
próprios para aprender, e eu sei que é preciso o mundo
inteiro para dizer a alguém quem ele é.

Sou um paradoxo.
É quando falo alto que escuto mais.

Sou um caçador de tesouros em tempo integral,
em minha busca de novas oportunidades para que
meus alunos usem seus talentos e em minha procura
constante desses talentos que, às vezes,
permanecem encobertos pela auto-derrota.

Sou o mais afortunado entre todos os que labutam.

A um médico é permitido conduzir a vida num
mágico momento.
A mim, é permitido ver que a vida renasce a cada
dia com novas perguntas, ideias e amizades.

Um arquiteto sabe que, se construir com cuidado,
sua estrutura poderá permanecer por séculos.
Um professor sabe que, se construir com amor e verdade,
o que construir durará para sempre.

Sou um guerreiro, batalhando diariamente contra a
pressão dos colegas, o negativismo, o medo, o conformismo,
o preconceito, a ignorância e a apatia.
Mas tenho grandes aliados: Inteligência, Curiosidade,
Individualidade, Criatividade, Fé, Amor e Riso,
todos correm a tomar meu partido com apoio indômito.

E assim, tenho um passado rico em memórias.
Tenho um presente de desafios, aventuras e divertimento,
porque a mim é permitido passar meus dias com o futuro.

Sou professor... e agradeço a Deus por isso todos os dias.

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