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26/03/2012

Ninguém nasce feito

(...) é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos. Prof. Antonio R. Navarro
Dias atrás coloquei uma postagem intitulada: "Os sete erros do professor". Após comentar cada "erro" de acordo com a publicação da revista Nova Escola, coloquei uma enquete a fim de verificar o que os leitores pensavam a respeito...
A participação foi pequena conforme pode-se observar abaixo: (típico da nossa cultura, pouco participativa). 
Chama a atenção o fato de ninguém ter votado no item: "não concorda" e considerando que o voto no item "acrescentaria outras questões" foi meu, isso quer dizer que, dos que votaram, pelo menos a metade concorda (ou mais). A princípio pode ser que alguns pensaram que a postagem tivesse um tom de "crítica" ao trabalho do professor, já tão pouco reconhecido e valorizado. Mas posso garantir que o objetivo não foi esse, em hipótese alguma. Imaginar que não erramos nunca seria "utópico", mas sugerir a impressão de que "só erramos" é no mínimo maldoso. Todos os profissionais erram e acertam, porque conosco seria diferente? Paulo Freire faz uma bela reflexão a respeito da nossa profissão. Identifiquei-me muito com a história dele. Vejamos:
 
Ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos, na prática social de que tomamos parte.
Não nasci professor ou marcado para sê-lo, embora minha infância e adolescência tenham estado sempre cheias de "sonhos" em que rara vez me vi encarnando figura que não fosse a de professor.
"Brinquei" tanto de professor na adolescência que, ao dar as primeiras aulas no curso então chamado de "admissão" no Colégio Osvaldo Cruz do Recife, nos anos 40, não me era fácil distinguir o professor do imaginário do professor do mundo real. E era feliz em ambos os mundos. Feliz quando puramente sonhava dando aula e feliz quando, de fato, ensinava.
Eu tinha, na verdade, desde menino, um certo gosto docente, que jamais se desfez em mim. Um gosto de ensinar e de aprender que me empurrava à prática de ensinar que, por sua vez, veio dando forma e sentido àquele gosto. Umas dúvidas, umas inquietações, uma certeza de que as coisas estão sempre se fazendo e se refazendo e, em lugar de inseguro, me sentia firme na compreensão que, em mim, crescia de que a gente não é, de que a gente está sendo.
Às vezes, ou quase sempre, lamentavelmente, quando pensamos ou nos perguntamos sobre a nossa trajetória profissional, o centro exclusivo das referências está nos cursos realizados, na formação acadêmica e na experiência vivida na área da profissão. Fica de fora como algo sem importância a nossa presença no mundo. É como se a atividade profissional dos homens e das mulheres não tivesse nada que ver com suas experiências de menino, de jovem, com seus desejos, com seus sonhos, com seu bemquerer ao mundo ou com seu desamor à vida. Com sua alegria ou com seu mal-estar na passagem dos dias e dos anos.
Na verdade, não me é possível separar o que há em mim de profissional do que venho sendo como homem. Do que estive sendo como menino do Recife, nascido na década de 20, em família de classe média, acossada pela crise de 29. Menino cedo desafiado pelas injustiças sociais como cedo tomando-se de raiva contra preconceitos raciais e de classe a que juntaria mais tarde outra raiva, a raiva dos preconceitos em torno do sexo e da mulher.
(...)
Não nasci, porém, marcado para ser um professor assim. Vim me tornando desta forma no corpo das tramas, na reflexão sobre a ação, na observação atenta a outras práticas ou à prática de outros sujeitos, na leitura persistente, crítica, de textos teóricos, não importa se com eles estava de acordo ou não. É impossível ensaiarmos estar sendo deste modo sem uma abertura crítica aos diferentes e às diferenças, com quem e com que é sempre provável aprender.
Uma das condições necessárias para que nos tornemos um intelectual que não teme a mudança é a percepção e a aceitação de que não há vida na imobilidade. De que não há progresso na estagnação. De que, se sou, na verdade, social e politicamente responsável, não posso me acomodar às estruturas injustas da sociedade. Não posso, traindo a vida, bendizê-las.
Ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos na prática social de que tomamos parte.
Paulo Freire. Política e Educação. São Paulo, Cortez, 1993. p. 79-80; 87-8.
A aprendizagem amarga - Thiago de Mello
 
Chega um dia em que o dia se termina
antes que a noite caia inteiramente.
Chega um dia em que a mão, já no caminho,
de repente se esquece do seu gesto.
Chega um dia em que a lenha já não chega
para acender o fogo da lareira.
Chega um dia em que o amor, que era infinito,
de repente se acaba, de repente.

Força é saber amar, perto e distante,
com o encanto rosa livre na haste,
para que o amor ferido não se acabe
na eternidade amarga de um instante.

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