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03/03/2012

MANEIRA DE AMAR - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Nesta manhã acordei pensando em todas as pessoas que atendi durante a semana (foram muitas). Fiz uma retrospectiva dos relatos e dos principais temas abordados. Questionei-me: “O que há de comum entre eles”? Percebi que há um tema que os liga, embora, os relatos sejam bastante distintos: “o amor” (ou a falta dele). Não acredito em coincidência e sim em providência. Imediatamente o texto que veio-me a cabeça ao pensar sobre isso é esse que coloco abaixo:
Maneira de amar
Carlos Drummond de Andrade
O jardineiro conversava com as flores, e elas se habituaram ao diálogo. Passava manhãs contando coisas a uma cravina ou escutando o que lhe confiava um gerânio. O girassol não ia muito com sua cara, ou porque não fosse homem bonito, ou porque os girassóis são orgulhosos por natureza.
Em vão o jardineiro tentava captar-lhe as graças, pois o girassol chegava a voltar-se contra a luz para não ver o rosto que lhe sorria. Era uma situação bastante embaraçosa, que as outras flores não comentavam. Nunca, entretanto, o jardineiro deixou de regar o pé de girassol e de renovar-lhe a terra, na ocasião devida.
O dono do jardim achou que seu empregado perdia muito tempo parado diante dos canteiros, aparentemente não fazendo coisa alguma. E mandou-o embora, depois de assinar a carteira de trabalho.
Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. “Você o tratava mal, agora está arrependido?” “Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É a minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava.”
O DIFERENCIAL DE DRUMMOND
O Modernismo ficou conhecido como um movimento da liberdade. Não havia forma correta de se escrever. Podia-se falar de tudo, como quisesse. Drummond, neste sentido, foi um grande exemplar da filosofia modernista. Não há como definir a temática de Drummond. Desta forma, a melhor forma de entender sua obra, é senti-la. Quando mais se lê, mais se quer ler e tentar extrair alguma lição daqueles versos.
Drummond tinha a capacidade de traduzir eventos corriqueiros, gestos grandiosos, sentimentos singelos e paisagens simples em obras-primas. Neste contexto, Drummond também não ficou de fora da crítica social. Em meados do século XX, com a Segunda Guerra Mundial e a ascensão do nazi-fascismo, o poeta tratou o tema em alguns de seus poemas como é o caso dos livros Sentimento do Mundo e a Rosa do Povo.
Assista à homenagem prestada pelo Jornal Nacional na ocasião de sua morte: 
Cid Moreira narra o poema: José.
Há uma situação bastante comum que perpassa atualmente a vida de muitas famílias: “a separação” (com suas inevitáveis consequências tanto para o casal como para os filhos).

SEPARAÇÃO - AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA
Desmontar a casa 
e o amor. Despregar 
os sentimentos das paredes e lençóis. 
Recolher as cortinas 
após a tempestade 
das conversas. 
O amor não resistiu 
às balas, pragas, flores 
e corpos de intermeio. 

Empilhar livros, quadros, 
discos e remorsos. 
Esperar o infernal 
juízo final do desamor. 

Vizinhos se assustam de manhã 
ante os destroços junto à porta: 
-pareciam se amar tanto! 

Houve um tempo: 
uma casa de campo, 
fotos em Veneza, 
um tempo em que sorridente 
o amor aglutinava festas e jantares. 

Amou-se um certo modo de despir-se 
de pentear-se. 
Amou-se um sorriso e um certo 
modo de botar a mesa. Amou-se 
um certo modo de amar. 

No entanto, o amor bate em retirada 
com suas roupas amassadas, tropas de insultos 
malas desesperadas, soluços embargados. 

Faltou amor no amor? 
Gastou-se o amor no amor? 
Fartou-se o amor? 

No quarto dos filhos 
outra derrota à vista: 
bonecos e brinquedos pendem 
numa colagem de afetos natimortos. 

O amor ruiu e tem pressa de ir embora 
envergonhado. 

Erguerá outra casa, o amor? 
Escolherá objetos, morará na praia? 
Viajará na neve e na neblina? 

Tonto, perplexo, sem rumo 
um corpo sai porta afora 
com pedaços de passado na cabeça 
e um impreciso futuro. 
No peito o coração pesa 
mais que uma mala de chumbo. 
Monólogo com trecho do texto "Eu Sei Que Vou Te Amar", de Arnaldo Jabor
Eu me pergunto: "Como lidamos com as diferentes maneiras de amar"? "Estamos "preparados" para isso"? "Entendemos"? "Aceitamos"? "Sabemos amar"? "Afinal: o que é amar"? "Entendemos o amor do outro"? "Sabemos que amor ofertamos aos outros"? (...)

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