Licensa

29/02/2012

Inversão de valores

Uma inédita pesquisa qualitativa, feita em São Paulo com 5 000 alunos entre 15 e 18 anos, traçou um infeliz cenário para o ensino: na definição desses estudantes, ser bom aluno é, basicamente, motivo de profunda vergonha – raramente de orgulho. Por causa disso, muitos deles negligenciam as tarefas de casa e se afastam dos livros. O objetivo é camuflar talentos e aptidões, justamente pelos quais os jovens temem hoje se destacar. No grupo de alunos sobre o qual o novo estudo lança luz, há relatos impressionantes, como o de um jovem que, depois de uma série de notas dez, decidiu, propositadamente, cravar um zero. Queria assim ser aceito entre os colegas, que sempre o excluíam. Conseguiu. Diz o filósofo Carlos Roberto Merlin, que conduziu a pesquisa: “São exceção aqueles bons estudantes que seguem dedicados à atividade intelectual, mesmo sendo repreendidos pelos colegas. Eles têm pavor de serem taxados de nerd.” 
O quadro pintado na pesquisa reforça algo antigo no país: ainda que contabilizados recentes avanços, a educação continua a ser um valor secundário, quando não desprezível – como bem retrata o estudo. Isso se percebe de outros pontos de vista. Um deles é o lugar que a educação ocupa entre as prioridades dos brasileiros – quarto ou quinto, dependendo de quem dá o número – atrás do pagamento de dívidas e da compra de um carro novo. Também reforça a ideia de que as questões de sala de aula não estão no centro das preocupações o fato de a avaliação de pais, professores e estudantes sobre o ensino no país ser a melhor possível. Isso quando ele figura entre os piores do mundo. Clara evidência da falta de atenção que se dá ao assunto. 
É bom lembrar que em países de bom ensino, como a Coréia do Sul, ninguém tem vergonha de ser bom na academia. Ao contrário. As aptidões de cada um são cultivadas e exibidas desde muito cedo, na escola e em casa. Os holofotes estão sempre sobre aqueles jovens que revelam brilhantismo e talentos raros. Esses são vistos com admiração – exemplos a ser seguidos. O Brasil está, infelizmente, na contramão. Basta olhar para os rankings internacionais de ensino para saber quem está certo. 
Foto: Arquivo / Veja
Inversão dos Valores
Não faz muito tempo, que os pais ou avós ensinavam que os homens deviam ser cavalheiros com as mulheres, ou que as pessoas deviam se respeitar. Havia o conceito de que era fundamental ao ser humano a generosidade e cordialidade, no entanto, hoje, qualquer um está sujeito a ser interpretado como antiquado ou ultrapassado se assim o fizer.
Quando alguém é notado em ações de bondade, é definido como pateta e alguém que age maldosamente, por vezes recebe aplausos, teremos, com certeza, um prognóstico de que a sociedade caminha a passos largos para um mundo amoral e repleto de conflitos.
Todos os problemas da inversão de valores apontados, refletem diretamente na convivência de qualquer grupo social. Notar-se-á na família, filhos que não respeitam os pais, e se o fizerem , serão até criticados pelos seus amigos. Teremos casais sem princípios essenciais a uma convivência duradoura e saudável. Não haverá renúncia, compreensão e bem-estar entre cônjuges, pois o homem que renunciar será tido por "dominado" e a mulher se o fizer será titulada por "Amélia".
O bom funcionário será "puxa-saco" e o negligente será exemplar. O cônjuge infiel será bem-visto e o fiel será subestimado.
Os valores são violentados todos os dias por diversos meios e atitudes nos relacionamentos. A todo o momento as pessoas são reprimidas por agirem com cordialidade e simultaneamente incentivadas a transgredirem os princípios morais.
Fica fácil entender por que Rui Barbosa disse: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".
Não se pode ignorar a grande influência dos meios de comunicação na divulgação das contravenções e a quebra de princípios como comportamento modelo.
É patente, em atuações de novelas e filmes, os maus receberem simpatia e os bons serem ridicularizados. Em Hollywood, os viciados e foras-da-lei são alvos de apreço e como mencionado anteriormente, em reality-shows os bad-boys são favoritos a vencedores.
Dependerá dos líderes, oradores, conselheiros, escritores e agentes de posições similares, propagar os bons conceitos e incutir o repúdio à má conduta, bem como reconhecer com apreço os bons costumes.
A inversão de valores compromete o convívio social e deve ser combatida com rigor por meio de pessoas comprometidas com o desenvolvimento humano e o progresso social.

Nenhum comentário:

Postar um comentário