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27/02/2012

Literatura infantil e Inclusão.

DAS UTOPIAS
MÁRIO QUINTANA
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é o motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!


Literatura infantil e Inclusão.
(...) As crianças necessitam ler histórias que as levem para um outro mundo, um mundo mágico, literalmente fabuloso. Assim ler um conto para as crianças é dar-lhes condições de se tornarem adultos mais seguros dos seus sentimentos, pois o imaginário infantil se enriquece muito com estes contos da tradição literária, que de acordo com Lajolo exerce a seguinte função: 
Os textos que a tradição reserva o nome de literatura, embora nascendo de uma elite e a ela dirigidos, não costumam confirmar-se às rodas que detêm poder. Transbordam daí e, como pedra lançada às águas, seus últimos círculos vão atingir as margens, ou quase. Seus efeitos, a inquietação que provocam, podem repercutir em camadas mais marginalizadas, mais distantes dos círculos da cultura. (LAJOLO, 1982: 64) 
Portanto, o texto literário educa para incluir, porque a grande diversidade de linguagens simbólicas e também as vastas características e qualidades encontradas nos vários personagens ficcionais disponibilizam à criança leitora o conhecimento das muitas realidades humanas. E tais enunciados fundamentam de que a literatura tem uma importante função social, que é educar, consciencializar e incluir. Caldin (2003), afirma que a função social da literatura é facilitar ao homem compreender – e assim, emancipar-se – dos grandes dogmas que a sociedade lhe impõe. […] Dessa maneira, as histórias contemporâneas, ao apresentarem as dúvidas da criança em relação ao mundo em que vive, abrem espaço para o questionamento e a reflexão, provenientes da leitura. (CALDIN, 2003: 5) 
A leitura da literatura infantil também atua como uma possibilidade dos educandos vivenciarem novas experiências, podendo agir como um protagonista destas histórias e, assim, ganhar experiências e autonomia, ser ele próprio. Ao pensarmos em um trabalho consciente e crítico, voltado para a educação/inclusão para crianças com necessidades especiais, buscamos relatos de alguns estudiosos que privilegiam a literatura como um recurso fundamental e facilitador. (...)
Ao atuar como uma necessidade básica para a formação da criança e garantir uma experiência fundamental da existência humana, este tipo de narrativa é um rico recurso na remoção de representações sociais relacionadas com a deficiência e com a diferença, porque a Literatura infantil pode ser o cerne da construção de uma educação inclusiva, pois operando a partir de sugestões fornecidas pela fantasia e imaginação, socializa formas que permitem a compreensão dos problemas e demonstra-se como ponto de partida para o conhecimento real e a adoção de uma atitude que valorize as diferenças e as particularidades (ZARDO; FREITAS, 2004: 2) 
Jabur (2003) por meio de sua pesquisa nos afirma que assim como nosso corpo necessita de comida, nosso espírito precisa de leitura e que esta deve ser considerada como uma das necessidades básicas para a formação da criança por garantir uma experiência fundamental da existência humana. O pesquisador faz assim a relação da literatura com os direitos humanos. (...)
A BUSCA PELA IDENTIFICAÇÃO E TOMADA DE CONSCIÊNCIA EM A BOLSA AMARELA: COMPREENDENDO AS DIFERENÇAS 

A obra selecionada para análise, A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, publicada em 1976, é uma das muitas obras desta autora que se identifica com o publico infanto-juvenil e contém um discurso que não subestima a capacidade de leitura das crianças.
Em suas narrativas há um respeito pela experiência vivida e mesmo quando a fantasia toma conta do enredo, nunca é construída para alienar, mas sim para resgatar experiências, fazendo com que a criança leitora compreenda as situações e aprenda a lidar com elas.
A linguagem utilizada na narrativa concede trocas à criança leitora, que com os elementos fantásticos da obra, a compreensão e a influência por ela abstraída, se equivalem a um momento de prazer.
A Bolsa Amarela é um dos mais premiados e populares livros infanto-juvenis brasileiros, que conta a divertida história de Raquel, a filha mais nova da família, uma menina atenta a tudo o que se passa ao seu redor. Seus irmãos, com a diferença de idade de dez anos, não lhe davam atenção e importância às coisas que Raquel queria compartilhar, porque achavam que criança não sabe coisa alguma.
A protagonista, por se sentir muito só e excluída, começa a escrever para seus amigos imaginários e compartilhava três grandes desejos: ser um garoto, vontade de crescer e de ser uma escritora. Um dia, ganhou uma bolsa amarela, que passou a ser o esconderijo ideal para suas vontades e fantasias. A bolsa amarela acaba sendo a casa de dois galos, um guarda-chuva-mulher, um alfinete de segurança, o refúgio de seus pensamentos e também as histórias criadas pela narradora. Raquel, através de suas histórias, conta-nos fatos do seu quotidiano, juntando o mundo real da família ao mundo criado por sua imaginação, repleto de amigos secretos e fantasias. Ao mesmo tempo que acontecem fatos reais e fantásticos, uma aventura espiritual se processa, e a protagonista vai ao encontro de sua afirmação como pessoa. 
Um outro sentimento explorado na obra é o da exclusão, pois Raquel sentia-se completamente excluída de sua família, sentia-se rejeitada, por não ter sido um filho programado, desencadeando-lhe o sentimento de rejeição. Raquel, ao escrever para um dos seus amigos imaginários, “Tô sobrando […] Já nasci sobrando […] Mas se ela [a mãe] não queria mais ter filho, por que é que eu nasci? […] a gente só deveria nascer quando a mãe quer a gente nascendo […] (BOJUNGA, 1995: 13), deixa-nos claro e evidente este sentimento de carência e exclusão no seu próprio ambiente familiar. 
A falta de atenção e carinho que muitas crianças sofrem também é identificada através da personagem Raquel que compartilha novamente com um dos seus amigos imaginários, porém, desta vez, o sentimento de solidão. A solidão impulsiona Raquel a inventar estes amigos, para assim, compartilhar dentre outros conflitos interiores, a sua carência: “Prezado André, ando querendo bater papo. Mas ninguém tá a fim. Eles dizem que não tem tempo. Mas, ficam vendo televisão […] ” (BOJUNGA, 1995: 12).(...)
Através da vivência de Raquel é sublinhado outro tema proporcionando reflexão: o preconceito contra a mulher ditado pelos adultos. (...) O conflito familiar também destacado e vivenciado por Raquel é hoje muito comum na realidade da vida de muitas crianças. (...)
A autora, portanto, propõe à crianças leitoras, através de sua narrativa do realismo maravilhoso vários temas, entre eles, o preconceito, a indiferença e as diferenças, falando da vida e de como é possível viver e transformar em experiência as várias situações que se absorvem ao quotidiano de quem está no mundo. 
Lygia Bojunga Nunes se utiliza do olhar da criança e do jovem em suas narrativas e, a partir do ponto de vista dos mesmos, é que a vida se desenvolve através da experiência que se pode (re) tirar dela própria. (...)
Lygia Bojunga - Entrelinhas (11/03/2011)
Ganhadora do Hans Christian Andersen (prêmio internacional da literatura infanto-juvenil) e autora de A bolsa amarela (que já se tornou um clássico da literatura brasileira), Lygia Bojunga conversa sobre sua obra e sobre seu trabalho como atriz.
Para ver texto na íntegra: clique aqui

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