Licensa

31/01/2012

PRIMEIRO HEC DE 2012

HEC - SIGNIFICA HORÁRIO DE ESTUDO COLETIVO (acontece semanalmente em período contrário ao de trabalho do professor)
PROGRAMAÇÃO:
Análise da avaliação diagnóstica de Língua Portuguesa e de Matemática que será utilizada no planejamento para revisão dos diagramas de conteúdos dessas áreas do conhecimento. 
ENSINAMENTO
ADÉLIA PRADO
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor. Essa palavra de luxo.

Nosso primeiro dia de 2012

Passei dias e dias pensando, trocando ideias com minhas auxiliares para definirmos o que faríamos neste dia. Combinamos montar um arquivo em PPT com as principais orientações a serem seguidas pelos educadores e acrescentamos dois vídeos de sensibilização: 
A ESCOLA DOS NOSSOS SONHOS
UM PAR DE SAPATOS VELHOS
Todos nós queremos nesse ano que haja muita PAZ para que possamos trabalhar muito e dar o melhor de nós para essas crianças e para o futuro da humanidade. Por isso, deixo aos leitores, a poesia abaixo:
A PAZ 
SIDÔNIO MURALHA
Um capacete de guerra tem um ar carrancudo.
Muito mais bela é uma flor.
Uma flor tem tudo
para falar de paz e de amor.


Mas se virarmos o capacete de guerra
ele será um vaso, e é bem capaz
de ter uma flor num pouco de terra
e falar de amor e de paz.


A paz é uma pomba que voa.
É um casal de namorados.
São os pardais de Lisboa
que fazem ninho nos telhados.


E é o riacho de mansinho
que saltita nas pedras morenas
e toda calma do caminho
com árvores altas e serenas.


A paz é o livro que ensina.
É uma vela em alto mar
e é o cabelo da menina
que o vento conseguiu soltar.


E é o trabalho, o pão, a mesa,
a seara de trigo ou de milho,
e perto da lâmpada acesa
a mãe que embala seu filho.


A paz é quando um canhão
muito feio e de poucas falas,
sente bater um coração
e dispara cravos, em vez de balas.


E é o abraço que dás
no dia em que tu partires,
e as gotas de chuva da paz
no balanço do arco-íris.


A paz é a família inteira
na alegria do lar,
bem juntinho a lareira
quando o inverno chegar.


A paz é a onda redonda
que da praia tem saudades
e muito mais do que a onda
a paz é a vida sem grades.


A paz são aquelas abelhas
que nos dão favos de mel
e todas as papoulas vermelhas
que eu desenho no papel.


Ventoinha, ventarola,
Moinho que faz farinha,
Meninos que vão à escola,
A paz é tua e é minha.


É luar de lua cheia
tocando as casas e a rua,
são conchas, búzios na areia,
a paz é minha e é tua.


É o povo todo unido,
no mundo, de norte a sul,
e é um balão colorido
subindo no céu azul


A paz é o oposto da guerra,
é o sol, são as madrugadas,
e todas as crianças da terra
de mãos dadas, de mãos dadas,
de mãos dadas.

POESIA

Caio Fernando Abreu
Por tudo que fomos.
Por tudo o que não conseguimos ser.
Por tudo que se perdeu.
Por termos nos perdido.
Pelo que queríamos que fosse e não foi.
Pela renúncia.
Por valores não dados.
Por erros cometidos.
Acertos não comemorados.
Palavras dissipadas.
Versos brancos.
Chorei pela guerra cotidiana.
Pelas tentativas de sobrevivência.
Pelos apelos de paz não atendidos.
Pelo amor derramado.
Pelo amor ofendido e aprisionado.
Pelo amor perdido.
Pelo respeito empoeirado em cima da estante.
Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa.
Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados.
Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa.
Por tudo que foi e voou.
E não volta mais, pois que hoje é já outro dia.
Chorei.
Apronto agora os meus pés na estrada.
Ponho-me a caminhar sob sol e vento.
Vou ali ser feliz e já volto.

EDUCAÇÃO APÓS AUSCHWITZ

Esse foi um dos primeiros textos que lemos em nossa escola assim que a fundamos no ano de 2000. É sem dúvida nenhuma um texto "forte", "denso", mais indispensável para qualquer educador preocupado com o futuro do mundo. 
Theodor Adorno
A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação.
Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a regressão; a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. E isto que apavora. Apesar da não-visibilidade atual dos infortúnios, a pressão social continua se impondo. Ela impele as pessoas em direção ao que é indescritível e que, nos termos da história mundial, culminaria em Auschwitz. Dentre os conhecimentos proporcionados por Freud, efetivamente relacionados inclusive à cultura e à sociologia, um dos mais perspicazes parece-me ser aquele de que a civilização, por seu turno, origina e fortalece progressivamente o que é anticivilizatório. Justamente no que diz respeito a Auschwitz, os seus ensaios O mal-estar na cultura e Psicologia de massas e análise do eu mereceriam a mais ampla divulgação. Se a barbárie encontra-se no próprio principio civilizatório, então pretender se opor a isso tem algo de desesperador.
A reflexão a respeito de como evitar a repetição de Auschwitz é obscurecida pelo fato de precisarmos nos conscientizar desse elemento desesperador, se não quisermos cair presas da retórica idealista.
Mesmo assim é preciso tentar, inclusive porque tanto a estrutura básica da sociedade como os seus membros, responsáveis por termos chegado onde estamos, não mudaram nesses vinte e cinco anos.
Milhões de pessoas inocentes ---- e só o simples fato de citar números já é humanamente indigno, quanto mais discutir quantidades foram assassinadas de uma maneira planejada. Isto não pode ser minimizado por nenhuma pessoa viva como sendo um fenômeno superficial, como sendo uma aberração no curso da história, que não importa, em face da tendência dominante do progresso, do esclarecimento, do humanismo supostamente crescente. O simples fato de ter ocorrido já constitui por si só expressão de uma tendência social imperativa. (...)
É preciso reconhecer os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer tais atos, é preciso revelar tais mecanismos a eles próprios, procurando impedir que se tornem novamente capazes de tais atos, na medida em que se desperta uma consciência geral acerca desses mecanismos. Os culpados não são os assassinados, nem mesmo naquele sentido caricato e sofista que ainda hoje seria do agrado de alguns. Culpados são unicamente os que, desprovidos de consciência, voltaram contra aqueles seu ódio e sua fúria agressiva. É necessário contrapor-se a uma tal ausência de consciência, é preciso evitar que as pessoas golpeiem para os lados sem refletir a respeito de si próprias. A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica.
Contudo, na medida em que, conforme os ensinamentos da psicologia profunda, todo caráter, inclusive daqueles que mais tarde praticam crimes, forma-se na primeira infância, a educação que tem por objetivo evitar a repetição precisa se concentrar na primeira infância. (...)
(...) Quando falo de educação após Auschwitz, refiro-me a duas questões: primeiro, à educação infantil, sobretudo na primeira infância; e, além disto, ao esclarecimento geral, que produz um clima intelectual, cultural e social que não permite tal repetição; portanto, um clima em que os motivos que conduziram ao horror tornem-se de algum modo conscientes. (...)
(...) Tudo isso tem a ver com um pretenso ideal que desempenha um papel relevante na educação tradicional em geral: a severidade. Esta pode até mesmo remeter a uma afirmativa de Nietzsche, por mais humilhante que seja e embora ele na verdade pensasse em outra coisa. Lembro que durante o processo sobre Auschwitz, em um de seus acessos, o terrível Boger culminou num elogio à educação baseada na força e voltada à disciplina. Ela seria necessária para constituir o tipo de homem que lhe parecia adequado. Essa ideia educacional da severidade, em que irrefletidamente muitos podem até acreditar, é totalmente equivocada. (...)

30/01/2012

INCLUSÃO

Preocupada com o planejamento escolar de 2012 e empenhada em promover nova sensibilização com professores e funcionários sobre a questão da Inclusão, realizei um pequeno levantamento de filmes e documentários a respeito do tema. Há uma variedade muito grande de materiais a disposição, basta querer e saber como utilizá-los. Eis alguns deles:

SUGESTÕES DE FILMES, DOCUMENTÁRIOS E SITES
FILMES
· Nell – sobre linguagem;
· O milagre de Helen Sulivan – sobre surdez-cegueira;
· Filhos do silêncio - sobre surdez;
· A música e o silêncio - sobre surdez;
· Gestos de amor - sobre surdez;
· Os sinos de Annie - sobre dislexia e cegueira;
· Livre para voar – sobre deficiência física.

DOCUMENTÁRIOS
· Educação Especial


TV Escola:
a) Deficiência: mito e realidade;
b) TV Executiva: os novos rumos da Educação Especial ( dois vídeos );
c) O menor elefante do mundo – ética – animação;
d) Um salto para o futuro – Série Escola – Exclusão e inclusão – cinco programas

Área Auditiva:
TV Escola:
a) Série Deficiência Auditiva:
- Conhecendo a surdez;
- Aprendendo a se comunicar;
- A busca da inclusão;
- Língua Brasileira de Sinais;
b) Linguagem silenciosa;
c) Para um filho surdo;
d) Série direitos do coração – programa 2 – O torneio;
e) Quem não escuta, a chance encurta – saúde; Fundação Roquete Pinto;
e) Vejo vozes;
O Mundo dos surdos e os absurdos do mundo;
Mãos viajantes;
GNT – O som e a fúria;
Discovery Channel – A linguagem.

Área visual
TV Escola:
f ) De olhos fechados;
g) Hamsa, eu sou.

Área Mental
TV Escola:
a) Série Deficiência Mental;
b) Deficiente mental: ameaça ou oportunidade?
c) Estimulação intensificada;
d) Brincar é coisa séria;
e) O desafio da escola;
f ) Passagem para a vida adulta;
g) Vida adulta e cidadania;
b) REVIVER Programa Down;
f ) A viagem da alegria;
g) Músicos especiais ( Síndrome de Williams ).

Área Física
a) Série Deficiência Física;
b) Apenas diferentes;
c) Os primeiros anos;
d) Escola, a primeira aventura;
e) Bem além dos limites;
f ) Ritmo, desejo, ação!
g) Adulto, cidadão e diferente;
h) O lutador;
i) Nem sempre será fácil.

Área Múltipla
a) Série Deficiências Múltiplas;
b) Deficiências múltiplas;
c) Estimulação precoce;
d) Pré-escola – a aventura começa;
e) Escolarização em busca da cidadania.

Área visual-auditiva
a) Série “Os Transformadores”;
b) As borboletas de Zagorsk.

Superdotados
a) Série Superdotados;
c) Superdotados;
d) Superdotados no ensino regular.

Dificuldades de aprendizagem
e) Sua própria mente: capacidade invisível.

SITES
· www.acessibilidade.net - informações gerais;
· www.entreamingos.com.br - informações gerais;
· www.niee.ufrgs.br - núcleo de informática de Educação Especial;
· www.geocities.com/artevital/eficiente - informações gerais;
· www.keepnet.com.br - sobre lesão medular;
· www.vionworldfoundation.org - sobre deficiência visual;
· www.clicdeficiencia.com.br -informações gerais;
· www.educacaoparadeficientes.hpg.ig.com.br - sobre inclusão e ensino a distância;
· www.truenet.com.br/ronaldo - sobre paralisia cerebral;
· www.geocities.com/defis_2000/index - sobre deficiência;
· www.surdo-ce.org.br - sobre surdez;
· www.geosities.com/hotsprings/7455 - depoimentos de deficientes;
· www.ama.org.br - sobre autismo;
· www.adid.com.br - sobre Síndrome de Down;
· www.gentespecial.com.br – depoimentos.
- www.sentido.com.br
· www.inclusão.com.br
· www.ama.org.br – associação amigos do autista;
· www.mj.gov.br/corde/webcorde.html
· www.truenet.com.br/ronaldo/
· www.geocities.com/hotsprings/7455/index.htm
· www.nce.ufrj.br/aau/dosvox
· www.aleph.com.br/diferent
· www.uc.pt/SACAD/gatped.html

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A nova LDB e as necessidades educativas especiais. Cadernos CEDES n.46. Campinas/SP: UNICAMP, 1998.
AMARAL, Lígia A. Sobre a questão da integração: “a política do Avis-Struthio” e o “leito de Procusto”. Revista Integração, MEC, 4(13), p. 30-32, 1991.
___________. Pensar a diferença/deficiência. Brasil, MJ/CORDE, 1995.
AQUINO, J. G. (org.).Diferenças e preconceitos na Escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1998.
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro:Forense Universitária, 1983
BIANCHETTI, L., FREIRE, I. M. (org.). Um olhar sobre a diferença: integração, trabalho e cidadania. São Paulo: Papirus, 1998.
BUENO, José Geraldo S. Educação Especial brasileira: integração/segregação do aluno diferente. São Paulo: Educa, 1993.
Educação Especial. Cadernos CEDES, n. 23 São Paulo: Cortez Editora, 1989.
ESTEBAN, Maria Teresa. Repensando o fracasso escolar. In: Cadernos CEDES, O sucesso escolar: um desafio pedagógico, n. 28, Papirus, 1992.
FERRAZ, Ricardo. Visão e revisão, conceito e pré-conceito. Coletânea de Cartuns 1981-2000, Cachoeiro do Itapemirim/ES, 2000.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio: o dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
FEUERSTEIN, R. Instrumental enrichment. Baltimore: University Park Press, 1980.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Brasiliense, 1997.
GARCIA, Rosalba M. C. Interações voltadas à cidadania e à filantropia na escolarização de sujeitos que apresentam sequelas motoras. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis/SC,1998.
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GOÉS, Maria Cecília R. e SMOLKA, Ana Luiza B. A significação nos espaços educacionais: interação social e subjetivação. Campinas/SP:Papirus,1997.
GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4 ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.
HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. 4 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
MASINI, E.F.S. O Perceber e o relacionar-se com o deficiente visual. Brasil: MJ/CORDE, 1994.
MAZZOTA, M.J.S. Alunos e escolas com necessidades especiais no século XXI. Palestra no Fórum Permanente de Linguagem, Educação e Surdez, RS:INES/
MEC, 2001, site: www.educaçaoonline.pro.br, acesso em 5 de dezembro de 2001.
MELLO, G. N. Magistério de 1o. grau: da competência técnica ao compromisso político. 3 ed. São Paulo: Autores Associados,1983.
OMOTE, Sadao. Deficiente e não-deficiente: recortes do mesmo tecido. Revista Brasileira de Educação Especial, vol.1, n.2, Piracicaba/SP:UNIMEP,1994.
___________. Normalização, integração, inclusão. Ponto de Vista, n. 1, UFSC/ CED, 1999.
PASSOS, J. C. O Trabalho docente e a organização escolar: uma articulação necessária. Ponto de Vista. UFSC. 1999, p. 58-67
PESSOTI, Isaias. Deficiência mental: da superstição à ciência. São Paulo: Educ, 1990.
RIBAS, J. B. C. Deficiência: Uma identidade social, cultural e socialmente construída. Revista Integração, ano 4, número 9, 1992, p.4-7.
SANTA CATARINA. Proposta Curricular do Estado de Santa Catarina – Educação Especial. Secretaria Estadual de Educação/SC, 1998.
SASSAKI, R. K. Políticas sociais voltadas às necessidades de pessoas com deficiências. Site www.entreamigos.com.br, 1997, acesso em 5 de janeiro de 2002.
SILVA, Solange C. À rua da escola: estudo de significados construídos por adolescentes abrigados. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis/SC,1999.
SKRTIC, Thomas. La crisis en el conocimiento de la educación especial: una perspectiva sobre la perspectiva. In: Interperetación de la discapacida: Teoria y historia de la eudcacion especial. Barcelona: Ediciones Morata,1996.
VYGOTSKY, L.S. Obras escogidas. Madrid: Editorial Pedagógica, 1997.v.II e V

29/01/2012

A ARTE DE ENSINAR

Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Levaria a passear por parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas simetrias e perfumes; levaria a livraria para que ela visse, nos livros de arte, jardins de outras partes do mundo. Aí, seduzida pela beleza dos jardins, ela me pediria para ensinar-lhe as lições das pás, enxadas e tesouras de podar.  Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos  as melodias mais gostosas e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música. Ai, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da  beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes. Se fosse ensinar a uma criança a arte da leitura não começaria com as letras e as sílabas. Simplesmente leria as histórias mais fascinantes que a fariam entrar no mundo encantado da fantasia. Aí então, com inveja dos meus poderes mágicos, ela quereria que eu lhe ensinasse o segredo que transforma letras e sílabas em histórias. É assim. É muito simples. ( Almanaque Brasil de Cultura Popular,  setembro 2004 ).

CONSOLO NA PRAIA


Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade esta perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
O professor disserta sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
Cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O professor baixa a voz
Com medo de acordá-lo.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Prece do estudante

Um grão de poesia basta
para perfumar todo um século. 
José Martí
Certa vez um economista participava de um debate, em que se discutia o desemprego e, após um engenheiro falar sobre a contribuição da construção civil na demanda por mão-de-obra, o mediador, entre irônico e sério, fez a seguinte afirmação-pergunta: “os professores não constroem pontes; logo, o que eles podem fazer para ajudar a diminuir o desemprego?” Sem tempo para pensar, o hábil polemista respondeu, também entre irônico e sério: “realmente um professor não constrói pontes, não levanta edifícios, não pilota aviões, não cura doentes... Essas atividades tão visíveis e responsáveis por tantos empregos”. 
O professor se contenta com algo mais simples: ele prefere construir o engenheiro que levanta as paredes, instruir o comandante que faz o avião voar, formar o médico que cura, e ensinar os jornalistas a fazerem perguntas embaraçosas. 
O professor não constrói coisas... Ele ‘constrói’ as pessoas que fazem as coisas, ou pelo menos ajuda as pessoas a construírem a si próprias.”
Dizia Immanuel Kant que o homem é a única criatura que precisa ser educada e a educação é a arte de formar os homens; isto é, desenvolver neles simultaneamente as faculdades físicas, intelectuais e morais. 
Professores ou pais, todos queremos educar jovens dóceis e receptivos. Queremos ver brotar diante de nossos olhos as sementes que semeamos. No entanto, são os jovens que nos desapontam, que testam nossa qualidade de educadores. 
São filhos complicados que testam à grandeza do amor dos pais. 
São os alunos" insuportáveis" que testam à capacidade de humanismo dos mestres. 
Pais brilhantes e professores fascinantes não desistem dos jovens, mesmo que eles causem frustração e não lhes deem o retorno imediatamente esperado.  
Paciência é o segredo. 
A educação do afeto é a meta. 
Os alunos que mais decepcionam hoje poderão ser aqueles que mais alegrias nos trarão no futuro.
Basta investir tempo e dedicação a eles.
“A educação é uma arte particular, que exige vocações muito particulares; exige qualidades morais que não são dadas a todos os homens, tais como sabedoria, firmeza, paciência, vontade e força para dominar as próprias paixões”; 
Exige profundo conhecimento do coração e da psicologia do ser humano, além do conhecimento dos meios mais apropriados para desenvolver no aluno as faculdades físicas, intelectuais e morais necessárias ao seu crescimento.
“A educação é uma arte que precisa ser estudada, do que resulta que o professor é, ele próprio, um eterno aprendiz”.
Vamos nos unir então, pais e professores, para que possamos construir nas mentes de nossos filhos uma estrutura firmada em valores nobres que garantam a construção de um mundo melhor através de uma convivência em bases verdadeiramente cristãs.
Sérgio Avelhaneda
Pretendo que a poesia tenha
a virtude de, em meio ao sofrimento
e o desamparo,
acender uma luz qualquer,
uma luz que não nos é dada,
não desce dos céus,
mas que nasce das mãos
e do espírito dos homens.

Ferreira Gular

28/01/2012

Perguntas de um trabalhador que lê - Bertolt Brecht

Quem construiu Tebas, a cidade das sete portas?
Nos livros estão nomes de reis; os reis carregaram pedras?
E Babilônia, tantas vezes destruída, quem a reconstruía sempre?
Em que casas da dourada Lima viviam aqueles que a edificaram?

No dia em que a Muralha da China ficou pronta,
para onde foram os pedreiros?
A grande Roma está cheia de arcos-do-triunfo:
quem os erigiu?
Quem eram aqueles que foram vencidos pelos césares? 
Bizâncio, tão famosa, tinha somente palácios para seus moradores? 
Na legendária Atlântida, quando o mar a engoliu, 
os afogados continuaram a dar ordens a seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César ocupou a Gália.
Não estava com ele nem mesmo um cozinheiro? 
Felipe da Espanha chorou quando sua frota naufragou. 
Foi o único a chorar?
Frederico Segundo venceu a guerra dos sete anos.
Quem partilhou da vitória?
A cada página uma vitória.
Quem preparava os banquetes comemorativos? 
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas informações.
Tantas questões.
Biografia
Brecht nasceu no Estado Livre da Baviera, no extremo sul da Alemanha, estudou medicina e trabalhou como enfermeiro num hospital em Munique durante a Primeira Guerra Mundial. Era filho de Berthold Brecht, diretor de uma fábrica de papel, católico, exigente e autoritário, e de Sophie Brezing (em solteira), protestante, que fez seu filho ser batizado nesta igreja.

"PAZ PROFUNDA"

Depois da minha última postagem, procurei colocar o "contraponto" através desse belíssimo vídeo:

Bill Douglas - "Deep Peace" - Jewel Lake - Irish blessing 
"Deep Peace," from Bill Douglas's CD "Jewel Lake" (Hearts of Space, 1991). Based on an Irish blessing.
"Paz Profunda", de Bill Douglas CD "Jewel Lake" (Hearts of Space, 1991). Baseado em uma bênção irlandesa.
"Deep peace of the running wave to you / Deep peace of the flowing air to you / Deep peace of the quiet earth to you / Deep peace of the shining stars to you / Deep peace of the gentle night to you / Moon and stars pour their healing light on you / Deep peace to you"
"Paz profunda da onda correndo para você / Profunda paz do ar que flui para você /profunda paz da terra tranquila para você / Profunda paz das estrelas brilhando para você /Profunda paz da noite gentil com você / Lua e as estrelas derrame sua luz de cura em você / profunda paz para você "
Quero apenas - Olga Savary
Além de mim, quero apenas
essa tranquilidade
de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.

27/01/2012

Carta de um Sobrevivente de Guerra

Terminada a última guerra mundial foi encontrada, num campo de concentração nazista, a seguinte mensagem dirigida aos professores: “Prezado Professor, sou sobrevivente de um campo de concentração. Meus olhos viram o que nenhum homem deveria ver. Câmaras de gás construídas por engenheiros formados. Crianças envenenadas por médicos diplomados. Recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas. Mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades. Assim, tenho minhas suspeitas sobre a Educação. Meu pedido é: ajude seus alunos a tornarem-se humanos. Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados ou psicopatas hábeis. Ler, escrever e aritmética só são importantes para fazer nossas crianças mais humanas.”
Segunda Guerra Mundial, Campo de concentração de Auschwitz. 7 prisioneiros trabalhavam numa construção de um depósito, um desses homens era Albert Veissid. Um judeu francês, que sobreviveu graças a solidariedade de outros 6 poloneses. 
Em 2009, durante a reforma no prédio que foi depósito do campo e hoje é uma escola, foi encontrada uma garrafa com um bilhete escrito por Albert nos tempos em que era prisioneiro. No bilhete havia o nome dele e dos 6 poloneses e suas identidades. 
Veja mais informações no site: www.segundaguerra.org 
Soldado da SS confirma massacre de judeus e conta: matei porque eram judeus - sem remorso

“QUE TIPO DE SEMENTE VOCÊ ESTÁ PLANTANDO NA VIDA DAS CRIANÇAS?”

Ainda a pouco, lendo alguns textos me deparei com a seguinte frase: “QUE TIPO DE SEMENTE VOCÊ ESTÁ PLANTANDO NA VIDA DAS CRIANÇAS?” Tratava-se da Sinopse de um livro de orientação aos pais. No texto há um trecho que diz assim: (...) “Se você é professor ou educador, o que tem feito para influenciar positivamente os pequeninos, contribuindo para o seu desenvolvimento mental, social e, principalmente, espiritual? A autora deste livro desafia e encoraja pais, mães e educadores a observar com todo o cuidado que tipo de sementes estão semeando. Comparando o tempo da infância a um solo fértil, (...).” 
Logo pensei, e nós? Que tipo de sementes estamos plantando dentro das nossas salas de aula? 
Gabriel Chalita, professor universitário, membro da Academia Paulista de Letras e ex-secretário de Educação do Estado de São Paulo escreve o seguinte texto: 
“É comum, no período que antecede o início das aulas, as crianças terem uma certa expectativa, um certo desejo, antecipando o que será a escola. Elas têm a tendência de gostar do professor. É o gosto da novidade, do que não conhecem – é a aventura do aprendizado. 
Começam as aulas e algumas expectativas são superadas, outras frustradas. Alguns encontros se revelam marcantes, outros nem tanto. Há alunos que voltam para casa, nos primeiros dias de aula, desejosos de narrar aos pais cada detalhe de seus professores.
Em uma leve viagem ao passado, rapidamente nos lembramos de alguns professores. Por que desses e não de outros? Porque alguns marcam mais. E é desses educadores que a pessoa se lembrará ao longo da vida. 
Escolha 
Infelizmente, muitos professores se convertem em burocratas da escola. Estão exercendo a profissão de estar ali e nada mais. Sem perfume nem sabor. Sem encontro nem encanto. Apenas ali, munidos de um programa determinado e esperando o fim, já no começo. Tristes mulheres e homens que embarcam na profissão errada e lá permanecem aguardando a miúda aposentadoria. Não são maus. Apenas não são educadores.
Há aqueles que educam desde os primeiros raios da aprendizagem. Preparam-se para a celebração do saber e do sabor – palavras com a mesma origem. Lançam redes em busca de curiosidades, surpreendem e permitem surpreender; ensinam e aprendem com a mesma tenacidade. Estão ali, em uma sala de aula, desnudos de arrogância e ávidos de vida. Não temem a inquietação das crianças e dos jovens. (grifo nosso) Não negligenciam o conteúdo, mas valorizam os gestos. Gestos – é disso que mais nos lembramos dos nossos mestres que passaram. E que permaneceram.
Capítulo1 - 1.9. Ensinar Exige o RECONHECIMENTO e a assunção da IDENTIDADE CULTURAL
Exercício 
Lembro-me de alguns, como a Ana Maria, professora de História, que nos instigava a estudar antes da aula o tema que seria trabalhado. Quando chegava a aula, propositadamente, errava e nós a corrigíamos. Era um jogo, uma didática simples que empregava. Eu chegava a sonhar com aquelas aulas. Ela despertava o gosto pela pesquisa e destravava os mais tímidos. Todo mundo queria corrigir a professora. 
Talvez, um exercício interessante para o professor, seja o das lembranças. Lembrar de quando era aluno, daqueles professores que eram educadores e, de repente, ter a humildade de imitá-los ou até reinventá-los. 
E não há tempo nem idade para fazer diferente. É só ter uma característica que Paulo Freire considerava importante para toda a gente, mas essencial para quem educava: gostar de viver. 
Quem gosta de viver não tem preguiça de reinventar, nem medo de ousar. Quem gosta de viver não tem medo de ternura, da gentileza, do amor. “Quem gosta de viver, educa!”

26/01/2012

ESTRATÉGIAS DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTO

O trabalho sistematizado com a leitura e a produção de texto é primordial para o processo de ensino-aprendizagem dos alunos, porém é possível perceber que as metodologias utilizadas pelos professores em sala de aula não estão sendo eficientes na formação de leitores e produtores de textos competentes, o que reflete claramente no desempenho dos alunos frente a interpretação de situações - problema, compreensão da ideia principal de um texto, identificação de informações implícitas, produção de um resumo, dentre outras atividades.
É necessário que os alunos percebam que os leitores fluentes utilizam determinadas estratégias específicas para se chegar à compreensão de um texto: identificação da estrutura textual; estabelecimento de relações com outros textos, com suas vivências e com o seu conhecimento de mundo; ativação dos conhecimentos prévios; inferência; visualização; sumarização e síntese. No entanto, não basta descrever esses processos, é fundamental mostrar aos alunos como eles funcionam, para que servem, e como podem ser utilizadas.
Devemos partir do princípio também, que a escrita é uma atividade que, na escola, deve ser abundantemente praticada, com diversas finalidades, entre as quais está o próprio aprendizado da escrita. 
Para produzir textos de qualidade, os alunos têm de saber o que querem dizer, para quem escrevem e qual é o gênero que melhor exprime essas ideias. A chave é ler muito e revisar continuamente.
Produção de textos: ler para escrever.
Débora Rana, professora e formadora do Instituto Avisa Lá, destaca que, para mediar um trabalho de escrita, o professor precisa ensinar um tipo específico de comportamento leitor: a busca de informações escritas com o objetivo de produzir um novo texto. 
A reescrita inibe a criatividade do aluno?
Não. Ao reescrever a versão pessoal de uma história conhecida ou com alterações solicitadas pelo professor, como a mudança de cenário, de tempo ou de narrador, o aluno pode realizar um grande esforço criativo para conseguir reconstruir a mesma história e não perder a coerência. Esse processo, baseado em diferentes maneiras de reescrever um texto-fonte, é parte integrante do percurso de autoria, que pode ser construída com muita prática e reflexão.
Revisão vai além da ortografia e foca os propósitos do texto
Produzir textos é um processo que envolve diferentes etapas: planejar, escrever, revisar e re-escrever. Esses comportamentos escritores são os conteúdos fundamentais da produção escrita.
Como?
Com a ajuda do professor, as turmas aprendem a analisar se ideias e recursos utilizados foram eficazes e de que forma o material pode ser melhorado. 
A reescrita coletiva é importante? Porque? 
Na reescrita, o texto além de conhecido deve estar memorizado pelos alunos? 
Como deve se dar a passagem da linguagem oral para a linguagem escrita? 
Que conceitos são trabalhados no processo de construção do texto coletivo? O professor assume a função de escriba somente, ou deve “conduzir” o processo e a reflexão dos alunos?
Reescrita coletiva.
A formadora Bia Gouveia realiza uma atividade de reescrita coletiva com a 3ª série da Escola Estadual Victor Civita, de Guarulhos. O trabalho faz parte do programa de formação de professores em Língua Portuguesa que vem sendo realizado pela Fundação Victor Civita na escola em 2009.
Ser autor exige pensar no enredo e na estrutura
Para que o aluno seja capaz de elaborar um texto com as próprias ideias e dentro das características de um gênero, é preciso que desenvolva um percurso de autoria.
Aspecto fundamental no trabalho de produção textual é garantir que a criança ganhe condições de pensar no todo. Do enredo à forma de estruturar os elementos no papel: é preciso aprender a dar conta de tudo para atingir o leitor. Esse processo denomina-se construção de um percurso de autoria e se adquire com tempo, prática e reflexão.
Produção de texto: reescrita.
Débora Rana, professora e formadora do Instituto Avisa Lá, explica como um percurso de autoria pode ser construído a partir da reescrita textos conhecidos pelos alunos.
Espera-se ao final do 5º ano, que os alunos saibam...
Revisar escritas (próprias e de outros), em parceria com os colegas, assumindo o ponto de vista do leitor com intenção de evitar repetições desnecessárias (por meio de substituição ou uso de recursos da pontuação); evitar ambiguidades, articular partes do texto, garantir a concordância verbal e a nominal. 
Revisar textos (próprios e de outros) do ponto de vista ortográfico.
Quais são as condições didáticas da escrita?
Cláudio Bazzoni, assessor da Prefeitura de São Paulo, explica que, ao solicitar a produção de textos, o professor precisa definir junto com o aluno o que escrever (qual gênero), para quê (com que função comunicativa) e para quem (para quais destinatários). 

25/01/2012

Qual a escola dos nossos sonhos?

Temos usados alguns textos muito interessantes para refletir sobre a escola que temos e a escola que "queremos". Um deles é o famoso texto da escritora Ruth Rocha intitulado "Quando a escola é de vidro".
Breve biografia da autora brasileira Ruth Rocha e a história do livro "Quando a escola é de vidro".
Outro texto não menos interessante e importante é do educador e escritor Rubem Alves intitulado "Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas".
Neste outro vídeo o educador e escritor Rubem Alves defende uma educação ligada a vida do estudante.
Mas afinal... Que tipo de escola "sonhamos" para nossos alunos?
Não será possível "conquistar"essa tão sonhada escola, sem muito estudo, reflexão, dedicação, aprofundamento, compreensão, etc. de tudo o que está por trás das aparências. 
Vale a pena ler o livro da pesquisadora e professora Maria Helena Souza Patto intitulado "A produção do fracasso escolar"
(...) "Considerando o fracasso escolar como um processo psicossocial complexo, e a fim de questionar alguns desses conhecimentos ditos "científicos", que fundamentam a teoria da carência cultural das crianças das camadas populares, Patto permanece numa escola pública de primeiro grau e num bairro da periferia da cidade de São Paulo, realizando observações em vários contextos e entrevistas formais e informais com todos os envolvidos no processo educativo que nela se desenrola, incluindo os alunos e suas famílias. 
Buscando um enquadramento teórico que tivesse como pressuposto a determinação histórico-social da ação humana, a autora encontrou no conceito sociológico de "vida cotidiana" (fundamentado pela pensadora marxista Agnès Heller), subsídios que a ajudassem a responder às seguintes perguntas: Quem são estas crianças? Como vivem na escola e fora dela? Como vivem na escola e como participam do processo que resulta na impossibilidade de se escolarizarem?
Constatando que nas pesquisas sobre a escola e sobre o fracasso escolar as crianças são reduzidas a números frios e impessoais e, consequentemente, tornam-se as grandes ausentes, Patto, convivendo com quatro alunos multi repetentes, deu voz a esses sujeitos e revelou o discurso dessas crianças, recusando-se a fazer um discurso "sobre" elas. Assim, a proposta metodológica utilizada pela autora possibilitou-lhe confrontar a leitura dos profissionais da escola com o discurso de seus alunos e de suas famílias: alguns laudos psicológicos dessas crianças com as observações feitas por ela e por suas auxiliares de pesquisa em sala de aula e nas casas das crianças, em relação ao fracasso 
escolar. 
Essa confrontação permitiu à autora elaborar algumas conclusões a respeito do tema, fazendo uma revisão crítica das teorias do déficit e da diferença cultural: 
- a inadequação da escola decorre, principalmente, de sua má qualidade, da representação negativa que os seus profissionais têm da capacidade dos alunos, consequência da desvalorização social dos seus usuários mais empobrecidos; 
- o fracasso da escola pública elementar é o resultado inevitável de um sistema educacional congenitamente gerador de obstáculos à realização de seus objetivos; 
- esse fracasso é administrado por um "discurso científico escudado em sua competência, naturaliza esse fracasso aos olhos de todos os envolvidos no processo"
-".-a rebeldia pulsa no corpo da escola e a contradição é uma constante no discurso de todos os envolvidos no processo educativo; mais que isto, sob uma aparente impessoalidade, pode-se captar a ação constante da subjetividade. A burocracia não tem o poder de eliminar o sujeito; pode, no máximo, amordaçá-lo." 
A obra de Patto configura-se como leitura imprescindível aos pesquisadores do fracasso escolar e a todos os educadores comprometidos com a democratização do ensino para as camadas populares. 
Em entrevista para o SINPRO-SP, o professor e pesquisador José Carlos Libaneo, define a função da escola tendo em vista que a escola não apresenta mais o monopólio do saber. Enfatiza também o papel do professor e as formas que o aluno percebe a escola nos dias atuais.

24/01/2012

Avaliação em língua portuguesa

Estamos nos preparando para o Planejamento 2012 que deverá ocorrer nos dias 22, 23 e 24 de fevereiro. As demandas são muitas e o tempo é curto. Então precisamos aproveitá-lo ao máximo, procurando ser rigorosos na escolha dos materiais que serão trabalhados com os educadores. 
Sempre iniciamos o ano com uma avaliação diagnóstica, principalmente nas áreas de Língua Portuguesa e matemática (isso não quer dizer que as demais áreas não sejam importantes e não necessitem de uma "sondagem"  do universo cultural dos alunos, mas como dissemos o tempo é escasso).
Nas minhas pesquisa encontrei dois vídeos que considerei bastante interessantes (um é continuação do outro) e o tema é justamente a questão da avaliação em Língua Portuguesa. Vejamos: 
Este vídeo constitui-se em material complementar para o estudo de temas relativos à produção de textos no ensino fundamental. Diversos aspectos concernentes a essa temática foram abordados no livro e no guia didático publicados junto a este material. No percurso das imagens você será convidado a refletir sobre sua prática pedagógica, a analisar situações didáticas de sala de aula vividas por outros colegas-professores e a planejar novas ações, registrando as experiências realizadas.
Neste projeto, procuramos tratar de diferentes aspectos de um mesmo tema: a avaliação em língua portuguesa. Além de questões introdutórias mais gerais, tais como o papel da avaliação na escola, a relação entre avaliação e organização curricular, e a importância da avaliação para os processos de letramento e alfabetização, abordamos outros subtemas, que são: histórico e caracterização dos paradigmas de avaliação; avaliação da compreensão leitora, na perspectiva do texto enquanto unidade de sentido; avaliação da produção do texto escolar, tendo em vista suas condições de produção; avaliação da oralidade, no contexto do debate contemporâneo em torno de qual fala ensinar aos alunos; avaliação da análise linguística, enquanto um dos eixos estruturantes do ensino da língua portuguesa na atualidade, ao lado da leitura e da produção de textos; instrumentos de avaliação, em suas relações com diferentes concepções de linguagem e ensino de português; avaliação na alfabetização, em que procuramos mostrar a diferença de perspectiva conceitual e metodológica entre os procedimentos "tradicionais" e aqueles considerados "construtivistas".
Superando os obstáculos de avaliar a oralidade - Quando se fala em ensino do oral, certamente não se trata de ensinar as crianças a falar, pois isso elas aprendem fora da escola. Por outro lado, não é verdadeira a ideia de que a fala é apenas uma questão de aprendizado espontâneo no dia-a-dia. O desempenho adequado em certas práticas orais formais pode ser desenvolvido na escola, como é o caso da apresentação de seminários ou da realização de debates, júris simulados, entrevistas etc.
Trabalhar com o oral em sala é, antes de tudo, identificar a imensa riqueza e variedade de usos da linguagem oral no cotidiano1. Portanto, é necessário abandonar a ideia de que o oral é uma realidade única, normalmente identificada com a conversa espontânea (o que, em sala de aula, resulta em exercícios do tipo “Converse com o colega...” ou “Dê sua opinião...”), bem como deixar de imaginar que o trabalho com o oral se resolve com atividades que envolvem o que se costuma chamar de escrita oralizada (toda palavra lida ou recitada).
Refletiremos sobre a prática de análise linguística (AL) no ensino de língua materna e sua avaliação, uma relação que ainda precisa ser melhor compreendida pelos docentes. Sabemos que muitas experiências escolares por nós vivenciadas enquanto éramos alunos(as) terminam sendo adotadas como modelo para nossa prática docente, ainda que de forma inconsciente ou irrefletida.