Licensa

11/07/16

Desconstrução - Débora Garcia

Homem não chora!
Ora sujeito
Deixa de preconceito
E chora!
Desde o anoitecer
Até nascer a aurora
Jorra!
Baixa sua guarda
Vem para a esgrima
Te garanto que, chorar
Não te tornará uma menina
E sim, humano
Compreendeu meu mano?
Desconstrói esse estigma
De querer ser de ferro
Quando se é apenas água
Como a que carrego em minha cabaça
Como a que abrigou a sua vida
Como a que escorreu de meus olhos
Quando, por você, fui ofendida
Dívida!
Reconheça seus privilégios
Olhe para nós, mulheres, bem mais de perto
Assim enxergará por conta própria
A dor que seu machismo provoca
Se olhe no espelho
E quando ficar evidente
A sua violência potente
Você vai chorar!
Pois ficará perplexo
Ao ver o seu reflexo
Chora!
Lava essa carcaça de macho
Desata os nós do patriarcado
E nas águas desse rio-vida
Desconstrói o seu machismo
Dia após dia
Tente se tornar um homem de verdade
Pois, homem de verdade, falha
Homem de verdade, fala, mas também ouve
Homem de verdade também é sensível
Gosta de fazer carinho
De ninar seus filhos
Homem de verdade também cozinha
Lava e passa
Homem de verdade não trapaça
É parça!
Homem de verdade não estupra
Conquista, flerta,
Homem de verdade sabe o quanto é bom
Quando a mulher se entrega
Homem de verdade também tem vaidade
Homem de verdade tem agressividade
Mas essa não é sua melhor qualidade
Homem de verdade quer ter a liberdade de ser
E não se preocupa com o que os outros irão dizer
Faça o que o que quiser de verdade
E a menos que essa seja a sua vontade
Nada disso te tornará uma mulher!
O seu machismo é cultural
Não está na sua digital
A sua mudança será contínua
Progressiva, dia após dia
Então comece agora!
Olhe para o seu machismo, homem
E chora!

Débora Garcia

26/06/16

Poema - Cazuza

Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo 
Eu acordei com medo e procurei no escuro 
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo 
Porque o passado me traz uma lembrança 
Do tempo que eu era criança 
E o medo era motivo de choro 
Desculpa pra um abraço ou um consolo 
Hoje eu acordei com medo mas não chorei 
Nem reclamei abrigo 
Do escuro eu via um infinito sem presente, passado ou futuro 
Senti um abraço forte, já não era medo 
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim 
De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa 
Morna e ingênua que vai ficando no caminho 
Que é escuro e frio mas também bonito porque é iluminado Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás
Todos já devem saber que Cazuza era extremamente apaixonado por sua avó. O que poucos sabem é que a música "Poema" foi escrita para ela. Em uma história do livro O Tempo não Para, Lucinha Araújo retrata direitinho o caso, aconteceu mais ou menos assim:
Cazuza em uma tarde presenteou sua avó com um lindo poema, dos versos mais simples e tocantes. Quando Cazuza veio a falecer, sua mãe começou a juntar todas as coisas que pertenciam ao filho, para mais tarde montar um acervo. Ela sabia que a avó de Cazuza guardava com muito carinho o poema que seu filho tinha a presenteado. Pedindo-a o poema, a avó recusou, dizendo que era um presente e que não poderia simplesmente dar pra ela. Lucinha ficou muito chateada.Quando a avó de Cazuza também veio a falecer, Lucinha recebeu uma caixinha, onde nela estava presente este poema. Gostando muito do texto, ligou pro Frejat e perguntou-lhe se gostaria de uma parceria para idealizar a música. Lendo-a, Frejat passou uma noite em claro e conseguiu finalmente transformar o poema em música. No entanto disse que ficaria perfeita na voz de Ney Matogrosso. O Ney lógico aceitou e assim surgia a música "Poema".

03/06/16

Tuas Mãos - Pablo Neruda

Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?


Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.

Eu sei que você está ai - Pablo Neruda

Eu sei que você está ai

Eu sei que você está ai
Pensando em mim
Se importando comigo,
Fazendo-me sentir segura
E todos os meus medos,
todo o meu passado é lavado
e só resta esperança em seu abraço.

Você me faz agradecer a Deus por cada erro que eu cometi
pq cada um deles me levou
ao caminho que me trouxe até você.
Quando finalmente nos encontrarmos
eu quero que você me abrace.

Abrace-me a noite toda,
pegue no meu cabelo,
diga-me que sou uma mulher
e mostre-me que você é um homem
até existir o agora.
Eu, você e o agora.

Não peço pelas explicações da noite,
Eu espero por isso,
e que isso envolva a mim,
a você,
a luz,
e as sombras...

Pablo Neruda

23/04/16

A música e o sentimento do artista


L'Ariston ha riservato una meritata standing ovation a Ezio Bosso, pianista, direttore d'orchestra di fama internazionale (ma è anche l'ex bassista degli Statuto) che suona tra Londra e i più prestigiosi teatri del mondo. Bosso è affetto da una malattia neurologica degenerativa che non limita la sua creatività e le sue capacità di musicista. L'intervista con Carlo Conti è stata emozionante come la sua performance al pianoforte. "La musica è come la vita, si può fare in un solo modo, insieme", il suo messaggio.
O Ariston reservou uma ovação merecida pelo Ezio Bosso, pianista, maestro de renome internacional (mas é também o ex-baixista do Estatuto) que soa entre Londres e os teatros mais prestigiados do mundo. Buxo está sofrendo de uma doença neurológica degenerativa que não limita a sua criatividade e sua capacidade como músico. Entrevista com Carlo Conti foi emocionante como o seu desempenho no piano. "A música é como a vida, pode ser feito em apenas um caminho, juntos," sua mensagem.

09/04/16

I miei figli dimenticheranno - Meus filhos vão esquecer

“O tempo, pouco a pouco, me liberará da extenuante fadiga de ter filhos pequenos, das noites sem dormir e dos dias sem repouso. Das mãos gordinhas que não param de me agarrar, que me escalam pelas costas, que me pegam, que me buscam sem cuidados, nem vacilos. Do peso que enche meus braços e curva minhas costas. Das vezes que me chamam e não permitem atrasos nem esperas.

O tempo me devolverá a folga aos domingos e as chamadas sem interrupções, o privilégio e o medo da solidão. Acelerará, talvez, o peso da responsabilidade que às vezes me aperta o diafragma. O tempo, certamente e inexoravelmente esfriará outra vez a minha cama, que agora está aquecida de corpos pequenos e respirações rápidas. Esvaziará os olhos de meus filhos, que agora transbordam de um amor poderoso e incontrolável. Tirará de seus lábios meu nome gritado e cantado, chorado e pronunciado cem mil vezes ao dia.

Cancelará, pouco a pouco, ou de repente, a confiança absoluta que nos faz um corpo único, com o mesmo cheiro, acostumados a mesclar nossos estados de ânimo, o espaço, o ar que respiramos.

Como um rio que escava seu leito, o tempo perigará a confiança que seus olhos têm em mim, como ser onipotente, capaz de parar o vento e acalmar o mar, consertar o inconsertável e curar o incurável. Deixarão de me pedir ajuda, porque já não acreditarão mais que em algum caso eu possa salvá-los. Pararão de me imitar, porque não desejarão parecer-se muito a mim. Deixarão de preferir minha companhia em comparação com os demais (e vejo, isto tem que acontecer!).

Se esfumaçarão as paixões, as birras e os ciúmes, o amor e o medo. Se apagarão os ecos das risadas e das canções, as sonecas e os “era uma vez”… Com o passar do tempo, meus filhos descobrirão que tenho muitos defeitos e se eu tiver sorte, me perdoarão por alguns deles.

Eles esquecerão, mas ainda assim eu não esquecerei. As cosquinhas e os “corre-corre”, os beijos nos olhos e os choros que de repente param com um abraço, as viagens e as brincadeiras, as caminhadas e a febre alta, as festas, as papinhas, as carícias enquanto adormecíamos lentamente.

Meus filhos esquecerão que os amamentei, que os balancei durante horas, que os levei nos braços e ás vezes pelas mãos. Que dei de comer e consolei, que os levantei depois de cem caídas. Esquecerão que dormiram sobre meu peito de dia e de noite, que houve um dia que me necessitaram tanto, como o ar que respiram.

Esquecerão, porque é assim mesmo, porque isto é o que o tempo escolhe. E eu, eu terei que aprender a lembrar de tudo para eles, com ternura e sem arrependimentos, incondicionalmente. E que o tempo, astuto e indiferente, seja amável com estes pais que não querem esquecer.”

03/04/16

Metallica - Nothing Else Matter (Legendado)



Nada mais importa

Tão perto, não importa quão longe
Não poderia ser muito mais vindo do coração
Sempre confiando em quem nós somos
E nada mais importa

Nunca me abri desse jeito
A vida é nossa, nós a vivemos da nossa maneira
Todas essas palavras eu não apenas digo
E nada mais importa

Confiança eu procuro e acho em você
Cada dia para nós é algo novo
Abra a mente para uma nova concepção
E nada mais importa

Nunca me importei com o que eles fazem
Nunca me importei com o que eles sabem
Mas eu sei

Tão perto, não importa quão longe
Não poderia ser muito mais vindo do coração
Sempre confiando em quem nós somos
E nada mais importa

Nunca me importei com o que eles fazem
Nunca me importei com o que eles sabem
Mas eu sei

Nunca me abri desse jeito
A vida é nossa, nós vivemos do nosso jeito
Todas essas palavras eu não apenas digo
E nada mais importa

Confiança eu procuro e acho em você
Todos os dias para nós algo novo
Mente aberta para uma nova visão
E nada mais importa

Nunca me importei com o que eles dizem
Nunca me importei com jogos que eles jogam
Eu nunca me importei com o que eles fazem
Eu nunca me importei com o que eles sabem
E eu sei... ! Yeah!

23/01/16

"Mexo só um dedo, mas virei escritora"

Tenho duas vidas. Não consigo explicar de outra forma o que vivo. Eu era uma jovem bastante normal. Pertencia a uma família de classe média e era uma garota bonita. Aos 17 anos, passei em cinco vestibulares e comecei a cursar Farmácia e Bioquímica na Universidade de São Paulo (USP). No fim do primeiro ano da faculdade, ganhei minha primeira paixão: um carro vermelho, lindo! Uma surpresa inesquecível, presente de aniversário do meu pai, que se tornou meu companheiro no início dos anos 90. Nesse mesmo período, conheci o Lucas, um judeu loirinho e simpático, formado em engenharia pela USP. Minhas amigas comentavam a diferença entre nós. Lucas era tido como feio e nerd, eu era popular. Mas, não ligava.

Ele foi um grande amor, mas assim como água e óleo não se misturam, percebi logo que com judeus e católicos o mesmo pode acontecer. Ficamos três anos juntos, mas os pais do Lucas nunca me aceitaram. Nosso amor, entretanto, parecia maior que isso. Em 1991, passei a tomar pílulas anticoncepcionais com a orientação da minha médica ginecologista. Falei a ela que eu era fumante, mas naquele momento, não percebemos o risco que eu corria.

Eu era uma jovem dinâmica e ativa. No mesmo ano, resolvi começar a trabalhar. Transferi o curso de farmácia para o período noturno e arrumei um emprego em uma empresa de higiene bucal, em que fui efetivada. Todos os dias, cruzava a cidade com meu carro para trabalhar e estudar. E ainda arrumava tempo para correr pela USP nos fins de tarde e fazer aulas de ginástica aeróbica e musculação. Aos fins de semana, eu fazia passeios românticos com meu namorado ou saía com minha turma de amigos. Gostava de dançar, viajar, beber, conversar, fazia tudo o que me dava vontade.

Em meados de 1993, comecei a ter dores de cabeça que, apesar de desaparecerem com aspirinas, estavam ficando cada vez mais frequentes. Decidi marcar uma consulta com a ginecologista, queixei-me das dores, mas ela disse que não era nada grave. Passei um ano com o problema. E, num domingo, dia 1 de maio de 1994, vi o Ayrton Senna morrer. A data me marcou demais. Não que eu imaginasse que, no dia seguinte, seria eu a próxima vítima – de um tipo diferente de morte, mas morte. Na segunda, acordei, me vesti e fui trabalhar. Trabalhei o dia todo, não senti nada de anormal. No fim da tarde, fui buscar meu irmão na USP, para irmos para casa. Quando chegamos, me apressei em ir até o banheiro para escovar os dentes. Na sequência, iria ao shopping. Mas antes de sair do banheiro, senti uma forte tontura e gritei por socorro.

Quase imediatamente entrei em convulsão. É uma sensação horrível! Tentava controlar meus movimentos, mas os músculos não paravam de tremer. Minha família ficou apavorada. Meu pai massageava meu coração. Meu irmão cuidava para eu não morder a língua, colocando uma escova de dente na minha boca. Enquanto isso, minha mãe ligava para o resgate. Alguns vizinhos ouviram a confusão e vieram ajudar. Me pegaram no colo e me colocaram num carro. São mais que vizinhos, são queridos amigos de quem até hoje recebo muito carinho e apoio. Quase não conseguia falar e, naquela confusão, não sabia se minha família viria atrás do carro ou não. Fui para o pronto-socorro Municipal de Santana. No caminho, pedia calma com a mão, não tinha a mínima ideia do que estava por vir.

Agora entendo porque, em um pronto-socorro municipal, cuja fila é enorme, fui atendida logo. Colocaram-me em uma maca e levaram-me direto para a consulta. Na sala do médico, havia algumas enfermeiras que delicadamente tiraram meu relógio, gargantilha e brincos. Precisavam ser delicadas para eu não me machucar, pois meu corpo trepidava. Minha família me achou no pronto-socorro, depois de percorrer todos os hospitais da região. Ao lado da maca, minha mãe segurava a minha mão, e eu me perguntava quem seria aquela pessoa. De olhos fechados e com muito esforço, só conseguia falar mamãe e papai. Ironicamente, as primeiras palavras que aprendi seriam as últimas que eu diria.

Aos poucos ia chegando a hora da metamorfose. Inconscientemente, eu dava adeus aos meus longos cabelos aloirados, aos meus passos, à minha voz (que nunca mais ninguém ouvirá), aos movimentos, às danças nas festas, ao meu querido carrinho e a mais um milhão de coisas. Fui transferida de ambulância para um hospital particular. Apenas meu pai me auxiliava, com um balão de oxigênio. Era difícil de respirar.

No novo hospital, um enfermeiro me pôs em uma maca. Levaram-me para um quarto. Tiraram minha roupa e me vestiram com um daqueles camisolões de hospital. A convulsão continuava. Lembro-me dos médicos ficarem discutindo o diagnóstico em volta da cama. Fui ficando atordoada, senti um mal-estar repentino e vomitei. Uma enfermeira que me acompanhava falou para o colega dela: “Ela não passa desta noite”. Depois dessa frase, já não lembro de nada. Entrei em coma. Durante esse período, não tinha consciência de onde estava, tudo parecia um sonho. Acordei dois meses depois, em outro hospital, careca, muda, tetraplégica, com sonda nasogástrica, fraldas e cicatrizes. Quando saí do coma, achei que tudo só podia ser um pesadelo. Longo e cheio de detalhes, mas um pesadelo. Podia jurar que não tinha estado em coma, mas na minha cama, dormindo.

O PESADELO
A verdade, no entanto, era outra. Sofri um Acidente Vascular Cerebral e minha nova realidade era aquela: feia, muda e sem movimentos. Lembrava da última vez que tinha me visto no espelho antes do AVC e sentia desespero. Saudade, tristeza, abandono... senti tudo, principalmente revolta e ódio. A combinação do cigarro com anticoncepcional aumenta muito o risco de a mulher sofrer um AVC e eu e minha ginecologista deveríamos ter percebido isso. Alguns especialistas me disseram que a pílula foi 100% responsável pela trombose que levou ao rompimento de uma das veias do meu cérebro. Outros acham que não foi o fator principal. Porém, a mistura da pílula com o cigarro deveria ter sido evitada e eu deveria ter dado atenção às dores de cabeça que não passavam. Se tivesse agido de outra forma, hoje estaria andando.

Depois da Trombose Cerebral e de ter ficado tetraplégica, vivi três anos sobre uma cama hospitalar. Durante esse período, observei quase todo mundo se afastando de mim. Lentamente, fui esquecida pelos meus 150 “queridos amigos”. Cada um que me deixou, me preencheu com uma mágoa eterna. O Lucas foi um deles. Ele foi diminuindo a frequência das visitas, até parar de me ver. Chorei, revivi todo meu passado, procurei culpas e culpados e pensei: morri, acabou tudo!

O que eu não sabia é que, na verdade, estava começando uma segunda vida. Não tinha saída. Eu poderia chorar a vida inteira pelo romance acabado e pela tetraplegia ou parar de chorar e começar a viver. Optei por viver: aos trancos, aos farrapos, aos pedaços. Mas o tempo tem uma força estranha, e com ele comecei a escrever meus pensamentos amargurados com o movimento de um único dedo, o médio da mão esquerda. Em um notebook, digitava no meu colo, na cama. No começo, cheguei a passar um dia para completar uma página. Depois de quase um ano de esforço, terminei meu primeiro livro: Sem Asas ao Amanhecer. Hoje, ele está na décima primeira edição. Mas não me contentei. Escrevi outro chamado A Doce Sinfonia de Seu Silêncio.

Como sou muito ativa e odeio ficar parada, voltei a estudar. Fiz mestrado e publiquei um livro científico sobre cosméticos. Em 2006, terminei o doutorado. Depois, fiz três anos de pós-doutorado, sempre na USP, e ganhei vários prêmios acadêmicos. Também aprendi sozinha inglês, italiano e espanhol. Há três anos me mudei para João Pessoa. Meu irmão passou em um concurso e começou a trabalhar na Universidade Federal daqui. Em pouco tempo, estávamos todos juntos. Logo procurei um modo de contribuir com a instituição. Estou no segundo ano de um novo pós-doutorado, já participei de mais de 30 congressos, tenho artigos publicados no exterior e sou revisora de revistas científicas.

O COTIDIANO
Me sustento com o dinheiro do meu trabalho e levo uma vida confortável. Contrato pessoas que me auxiliam nas tarefas diárias. Preciso de tudo: de um copo de água, de um banho, que me tirem e ponham na cama. É assim que vive uma mulher que mexe só um dedo. Uma vida nada fácil, mas é a única que eu tenho; e a vida não é como queremos, é como é. E, mesmo com essa limitação, me considero feliz. Amo o que faço. Uso estatística e química para analisar estruturas moleculares. Quando estou trabalhando, me sinto muito bem.

Durmo tarde, 23h, 24h, 1h. Dependendo do trabalho, acordo cedo, 6h ou 7h. E já coloco o biquíni! No meu prédio tem um espaço legal para tomar sol e eu aproveito o solzinho da manhã que é uma delícia. Tomo na minha cadeira-de-rodas “de sol”. Tenho três cadeiras: uma levinha, muito usada para banhos de sol, viagens e passeios em geral; uma mais alta e mais pesada, que uso para trabalhar no computador e uma motorizada, muito confortável. Depois do sol, tomo banho, vou para o computador e trabalho até a noite. Faço uma pausa para malhar e me alongar (montei uma miniacademia no meu quarto) e volto para o trabalho.

Adoro um churrasco com os amigos à beira da piscina ou passar o dia na praia, com cervejinha. Apesar da dependência física, tenho pensamentos e emoções próprias, como todo mundo. Às vezes, rola uma paquera no shopping ou em uma praia, mas o mais frequente é pela internet, porque a web é meu modo de fazer laços sociais. Ao mesmo tempo, desenvolvi a sensibilidade de entender nas entrelinhas e distinguir uma paquera de armadilhas. Se vejo que é sério, engato um namoro. Até noiva já fui duas vezes: por dois anos, do Mateus, e quase sete, do Fabrizio. Quando falo isso, as pessoas se perguntam sobre o sexo. É normal, já que não sou uma pessoa comum. Mas sou mulher e tenho relações como qualquer outra. Aprendi a dar e receber carinho e prazer.

Se você pensar que eu me comunicava piscando e hoje escrevo num teclado normal, acho que estou bem. Apesar dos meus limites físicos, produzo trabalhos de qualidade, reconhecidos e até invejados dentro da comunidade científica. Infelizmente, não posso prestar concurso na faculdade, porque não falo. Esse é meu sonho, ter um emprego na faculdade. Sei que não tenho condições de dar aulas, mas as faculdades deviam ter vagas para pesquisadores. É o meu sonho. Aprendi que nessa vida o que importa é ser feliz. Se eu encontro momentos prazerosos com minhas dificuldades, muita gente sã e cheia de dinheiro pode não encontrar. O que ontem era indispensável para mim, hoje é fútil. Ser feliz tornou-se ao mesmo tempo algo muito mais simples e complexo. Fonte

A Lenda do Jurutaí

Muito tempo atrás, no fundo da floresta amazônica, havia um pássaro chamado Jurutaí. Uma noite, Jurutaí olhou para cima, através do ar quente, e viu a lua. Ela estava completamente redonda. A luz prateada brilhou sobre a face de Jurutaí como se a lua estivesse se esticando para tocá-lo. E Jurutaí se apaixonou.
Jurutaí se apaixonou pela lua e quis ir até onde ela estava. Assim, voou até o topo da árvore mais alta que podia ver. Mas a lua ainda estava longe. Ele voou até o cume de uma montanha. Mas a lua ainda estava longe.
Então ele voou até o céu. Jurutaí bateu as asas, subindo, subindo, até o ar ficar rarefeito. Mas a lua estava muito longe. O pássaro continuou voando para cima até as asas doerem, os olhos arderem e parecer que cada respiração só enchia seus pulmões de vazio.
Queria prosseguir, mas era muito difícil. A força de suas asas chegou ao fim e de repente ele começou a cair. Rodopiava, através do ar negro, e batia as asas céu abaixo. Ele caiu de volta nas folhas úmidas e perfumadas das árvores. E se empoleirou ali, piscando ofegante para a lua. Ela estava distante demais para que ele a alcançasse. Assim, tudo o que Jurutaí podia fazer era cantar para ela. Ele cantou a mais bela canção que pôde.
Uma canção cheia de tristeza e amor, que se espalhou pela floresta.
A lua olhou para baixo, mas não respondeu. E lágrimas encheram os olhos de Jurutaí. Suas lágrimas rolaram pelo chão da floresta. Encheram vales e escorreram em direção ao mar. E dizem que foi assim que o rio Amazonas surgiu.
Ainda existe um pássaro chamado jurutaí que vive na floresta amazônica hoje em dia. Às vezes, na lua cheia, ele olha para o céu e canta. E ouvi falar de povos indígenas que acendem fogueiras quando a lua cheia brilha e cantam e dançam para fazer o jurutaí cantar. Eles sabem que cantar a mais bela canção que se conhece é a melhor maneira de se livrar da tristeza. E acreditam que deveríamos acender fogueiras no coração quando o jurutaí dentro de nós se cala.

09/01/16

A Lua da Língua

Existe uma língua para ser usada de dia, debaixo da luz forte do sentido. Língua suada, ensopada de precisão. Que nós fabricamos especialmente para levar ao escritório, e usar na feira ou ao telefone, e jogar fora no bar, sabendo o estoque longe de se acabar. Língua clara e chã, ocupada com as obrigações de expediente, onde trabalha sob a pressão exata e dicionária, cumprimentando pessoas, conferindo o troco, desfazendo enganos, sendo atenciosamente sem mais para o momento. É a língua que Cristina usou para explicar quem quebrou o cabo da escova na pia do banheiro, num dia de sol em Fortaleza. Ou a língua empregada pelas aeromoças nos avisos mecanicamente fundamentais. Língua comum; mútua e funcionária. Língua diária; isto é, língua à luz do dia. Mas no entardecer da linguagem, por volta das quatro e meia em nossa alma, começa a surgir um veio leve de angústia. As coisas puxam uma longa sombra na memória, e a própria palavra tarde fi ca mais triste e morna, contrastando com o azul fresco e branco da palavra manhã. À tarde, a luz da língua migalha. E, por ser já meio escura, o mundo perde a nitidez. Calar, a tarde não se cala, mas diz menos o que veio a dizer. Por isso, poucas vezes se usa esta língua rouca do ciciar das cigarras, que cede à luz minguante da sintaxe, mas meio bêbada de escuridão.
É a que frequenta os cartões de namoro, as confissões, as brigas e os gritos, ou a atenção desajeitada de velórios, também os momentos relevantes em vidas sem relevo, ou está nas palavras sussurradas entre os lençóis (ou ao pé dos muros nos bairros mais distantes) sob o calor da noite. Mas noite aqui, na face da Terra; que é bem diferente da noite nos breus de uma língua. Pois quando a língua em si mesma anoitece, o escuro espatifa o sentido. O sol, esfacelado, vira pó. E a linguagem se perde dos trilhos de por onde ir. Tateia, titubeia e, com alguma sorte, tropeça, esbarrando em regras, arrastando a mobília das normas, e deixando no carpete apenas as marcas de onde um dia estiveram outros móveis. À noite sonha nossa língua. O céu da boca, onde esta noite se forma, não tem estrelas de tão preto. É onde as palavras guardam ainda seu cheiro de pensamento. E têm a densidade vazia das idéias vagas, condensando-se invisivelmente como nuvens de um céu sem luz. No calor tempestuoso destas noites, é possível a bailarina ser feita de borracha e pássaro. José Ribamar põe aves dentro dos frutos maranhenses. E Murilo solta os pianos na planície deserta. Tudo é dito e tudo é silêncio, distante dos ruídos do dia. Existe o verbo, existe o verso. Existe a canção. Rosa mineira do Lácio. Tudo é possível na escuridão, sombra que alumbra; penumbra. Luz negra da noite. Quando abrimos a boca, a língua amanhece.
 (LAURENTINO, 2007, p. 96 - 98).

10/08/15

A semente e os frutos - Maria Rosa Colaço

A literatura para crianças é como uma semente de palmeira que, há mais de seis meses, um africano me vendeu, ali, para os lados do Martim Moniz. Num cesto pequenino tinha dez sementes ovais, duras, quase esquecidas. Era o seu negócio, tudo o que possuía, possivelmente o que lhe restava do seu país de sol e florestas onde talvez não regresse mais. Afagava as sementes, tocava-lhes e garantia:
— Leve, senhora! Primeiro, põe na água oito dias, depois mete na terra e rega pouco- pouco. Quando estiver quase a esquecer que tem lá uma semente enterrada, vai ver que nasce uma folhinha verde. Depois, é só esperar, que vai crescer até ficar grande, assim!
E com a mão de dedos esguios, marcava por alturas do coração o tamanho da palmeira. A convicção do vendedor e outras convicções que não vêm agora ao caso levaram-me a comprar a pequena semente. Meti-a na carteira, e nunca mais me lembrei que a tinha. Um dia, numa loja cheia de gente, abro o porta-moedas, a semente cai no chão e consegui pôr meio-mundo de cócoras a procurá-la como se tivesse perdido a maior preciosidade do mundo.
A menina da caixa lá a encontrou, debaixo do estrado. Uns senhores apressados já me olhavam como se eu tivesse fugido de um centro de doentes mentais em estado último de gravidade. Uma senhora, muito cheia de laca, ainda murmurou em tom bastante audível:
— Pensei que andavam à procura de algum anel, mas aquilo não é um caroço?
Foi uma vergonha, mas recuperei a semente de palmeira que, subitamente, adquirira a importância de um amuleto, de um cristal contra as ondas negativas como o que a Ana me trouxe do Brasil num saquinho que diz Princípio e Fim. Fui para casa, lá segui o conselho do vendedor de palmeiras – É preciso nunca faltar com a água –, depois esqueci-me outra vez que a tinha semeado e fui plantar hortelã no mesmo vaso. Mas, ao mexer na terra, lá encontro a semente com uma quase invisível pontinha verde, a começar a germinar.
E agora tenho a certeza que, lá para o ano dois mil e tal, se Deus me der vida e sonho, vou ter uma palmeira africana, que depois se encherá de cachos de pequenas tâmaras…
A princípio, nas escolas, ninguém saía dos mais que insípidos e gastos textos do livrinho de leitura. Não tinham tempo, os programas são um horror, os inspetores uns chatos, só ligam a burocracias, aos papéis, querem lá saber de criatividade. Mas, a pouco e pouco, lenta mas eficazmente, os pelouros da cultura de certas autarquias foram alargando as iniciativas, organizando colóquios, abrindo bibliotecas, dinamizando a leitura, convidando os escritores e pronto! Nasceu a ponte para o outro lado da alegria.
Agora, aí andamos nós a caminho das escolas, calcorreando estradas, conversando com os meninos que trabalham nos textos, fazem exposições, querem saber coisas, escrevem poemas, cantam, recitam e nos olham por dentro da alma, sem se importarem se somos novos ou velhos, se estamos bem ou mal vestidos. E é isto, esta disponibilidade para a fantasia, para repartir o coração, para oferecer a flor, o desenho, o beijo, que comove e nos faz sentir que vale a pena.
Mas ainda há sítios em que se negam, em que ficam sentados na sombra, em que têm medo de sonhar, de soltar-se, de abrir as janelas das salas de aulas para entrar a luz e o perfume das estações.
Mas, hoje, tenho a certeza: como a semente de palmeira, o que é preciso é paciência; o sonho bem regado acaba por dar raízes! É só esperar! O africano é que sabe.
Maria Rosa Colaço
Ela ainda mora aqui
Lisboa, Ed. Escritor, 1998
Adaptação